X
O CAMINHO "SECRETO" DO CASTELO
&
O PÁTIO DE D. FRADIQUE


Estamos de volta ao Largo de Santa Cruz, depois de termos percorrido o Bairro Civil do Castelo. Vamos agora entrar por aquela porta que exibe por cima o escudo de Portugal. E do lado de lá da muralha vemos abrir-se a Praça Nova, que outrora foi ocupada por casas e palácios, arrasados entre 1775 e 1807, e que hoje pouco mais é que um grande estaleiro. Edificado sobre fundações mouras, ficava também aqui o primitivo Paço dos Bispos de Lisboa. Este terrapleno, que se apoia nas muralhas a norte e a oriente sobre a Costa do Castelo, Santo André e o Menino Deus, é relativamente moderno. Antigamente uma rua atravessava-o a direito, por entre casas e logradouros, desde o Largo de Santa Cruz até à porta de Martim Moniz. Mais recentemente existiu aqui uma carreira de tiro e os edifícios da estação telegráfica da guarnição de Lisboa. Hoje o acesso pelo castelo está vedado, mas há poucos anos chegava-se a esta Praça vindo lá de cima, pelas muralhas. E era com agradável surpresa que o visitante se deparava aqui com um mini zoo, com veados e tudo, à sombra dos numerosos pinheiros. Hoje, apesar dos pinheiros se manterem, é o estaleiro que vês. Que terá acontecido aos veados? E que tal ignorar aquela placa que diz acesso proibido a visitantes? Também acho.


A Praça propriamente dita está dividida em duas zonas: uma parte em total abandono, fechada a grade e cadeado, e uma zona de estaleiro, murada com chapa protectora. Resta-nos avançar pelo único caminho possível: entre o estaleiro e muralha do castelo. Sigamo-lo que, apesar do aviso, não há por aqui ninguém que estranhe a nossa presença nem nos impeça a passagem. Tudo bons sinais.

 

Com as andanças assim espartilhadas, a Praça atravessa-se rapidamente. À nossa esquerda ficou o fosso e a ponte levadiça que dava acesso ao castelo. Mas o tapume impede-nos de fazer este desvio pelo que  seguimos em frente até vermos uma nova porta abrir-se na muralha e, através dela, descobrir no horizonte a cidade. Acabámos de atravessar a Praça Nova. Mas onde irá dar aquele novo caminho, já extra-muros?


Para nos situarmos melhor, repara nesta fotografia aérea aqui ao lado. Partimos do ponto 1, em frente à igreja de Santa Cruz, atravessámos a Praça Nova pelo percurso assinalado a vermelho e, atravessando de novo a muralha, encontramo-nos neste momento no ponto 2.
Temos agora alguns enigmas por resolver: que caminho é este que aqui se apresenta? De quem são estes automóveis aqui estacionados, e como vieram cá parar? E onde vai dar o caminho, tanto para a esquerda como para a direita? São questões que não se respondem em duas linhas. Antes de irmos adiante, aproveitemos esta pausa para ler as legendas.

3 - Castelo

4 - Praça Nova

5 - Costa do Castelo
6 - Bairro Civil de Santa Cruz do Castelo 7 - Largo do Menino Deus
M - Porta de Martim Moniz

Já está? Então vamos lá ver.
Comecemos por virar à esquerda, pelo tracejado azul. Este caminho leva-nos até ao troço de muralha que liga o castelo à torre de S. Lourenço. E se não vamos mais além, é porque existe um portão a impedir-nos a passagem. Mas há quem passe: repara naquele senhor ali à espera que lhe abram a porta. O mistério instala-se.

 

Voltamos para trás e seguimos pelo tracejado verde? Está bem.

À nossa esquerda vamos vendo os quintais nas traseiras das casas  da Costa do Castelo, uns mais cerrados que outros, muitos com pequenas hortas, e sobre os quais se abre uma magnífica vista da cidade.

O caminho propriamente dito tem um certo ar de estrada florestal, com algumas ruínas de muros antigos. É surpreendente, se pensarmos que estamos no coração da cidade; fantástico, ao apercebermo-nos que este caminho é totalmente desconhecido da generalidade dos lisboetas. Conseguiremos desvendar este mistério?

Entretanto, antes de percorrermos até ao fim este «caminho secreto», temos uma tarefa obrigatória para cumprir. Algures por aqui fica a Porta de Martim Moniz, e uma vez que não lhe temos acesso pela Praça Nova, é absolutamente imperativo localizá-la aqui pelo exterior.  Conhecemos o seu aspecto aproximado graças à gravura de 1862. Sabemos que deve ser uma porta com cerca de 2 metros e meio de largura, encimada por uma legenda datada de 1646, guarnecida, sobre a qual há uma espécie de nicho com a cabeça do herói, provavelmente mutilada no nariz e no queixo, vítima de vandalismos ancestrais. A legenda diz "Atravessando-se nesta porta / teve gloriosa morte / Dom Martim Moniz / que assim franqueou esta entrada / ao conquistar-se aos mouros / a cidade de Lisboa / em 21 de Outubro de 1147 / e reinado de / Dom Afonso Henriques." No interior, na Praça Nova, apesar de não a podermos ver, sabemos que há, ou houve, uma reprodução desta legenda, datada de 1908.
Estas inscrições resumem a lenda de Martim Moniz, que é tão conhecida que não vale a pena recordá-la aqui.


O problema é que não se consegue encontrar esta famosa porta em lado nenhum. Já percorremos repetidamente o exterior da muralha, para cima e para baixo, e não demos com ela. Só nos resta uma possibilidade: achas que a Porta de Martim Moniz poderá estar escondida pelo tapume das obras?  Bem, o que se adivinha lá por detrás da chapa não se parece nada com a gravura de 1862, mas nunca se sabe. Aliás, para sermos sistemáticos, cumpre-nos investigar este troço.  Nem sequer deve ser proibido passar para o lado de lá do tapume, porque nada o informa explicitamente, excepto talvez a corrente e o cadeado. Mas aquele pedaço que permite a passagem rastejando por baixo da chapa é uma tentação; quase um convite...

Vai lá tu que eu fico aqui de sentinela! Não? Pronto, está bem, vamos lá os dois.

 

A fresta junto ao chão não é grande, por isso entramos tão rapidamente quanto possível.

Enquanto sacudimos o pó, não consigo deixar de pensar que estamos a agir tão furtivamente como dois cruzados em missão exploratória por terras mouras. Tomara que não nos deixemos entalar como o bom do Martim Moniz.

No interior do recinto tudo parece calmo. Mas a única porta que existe tem uma localização totalmente inesperada. Poderá ser aquela a Porta de Martim Moniz? Será que aproveitam a porta do valoroso companheiro de Afonso Henriques para amontoar vilmente ferros, tábuas e tubos de borracha, entre outras indignidades? Aproximemo-nos para ver se abre. Não abre.

   

A explicação vê-se na gravura que aqui apresento. Aparentemente, alguém teve a brilhante ideia de construir um acrescento à muralha. Terão sido os restauradores de 1940? Seria para proteger melhor a porta do Moniz, evitando assim que mais alguém se entalasse?
Mas a desoladora constatação é imediata: estamos impedidos de cumprir a tarefa a que nos propusemos. Não foi por falta de empenho; afinal até acabámos por rastejar para dentro de uma zona vedada, para nos passearmos por entre materiais de construção.
Mas...ainda há uma hipótese, embora remota, de conseguir vislumbrar o nosso objectivo de um outro ângulo. Vamos lá! E felizmente estamos com sorte. Vês ali, por cima do muro? É a cabeça de Martim Moniz! Não se consegue perceber a legenda, pelo menos daqui, mas constata-se que a guarnição do nicho praticamente desapareceu.
Apesar de não termos visto exactamente a porta, acho que o nosso esforço não foi em vão.


Está na altura de continuar a descer o «caminho secreto», ao longo do tracejado verde que vimos acima. À nossa esquerda, abre-se uma vista privilegiada da Graça e de S. Gens, enquanto à direita continuamos seguindo sempre próximos da muralha, onde vemos surgirem alguns acessos que vão dar à Praça Nova, mas que estão impraticáveis.
Antes de chegarmos ao cotovelo, ainda vemos uns quintais que pertencem aos primeiros prédios do Beco dos Fróis; decrépitos, caóticos, desprezados,  tirando umas couves aqui e acolá.
Já tínhamos visitado antes o Beco dos Fróis. Ainda te lembras?


E estamos a chegar ao fim do «caminho secreto». Acaba ali à frente, naquele portão a seguir ao quiosque verde. Para lá dele fica o Largo do Menino Deus, por onde já andámos antes. O quiosque é uma espécie de guarita camuflada, onde se abriga um 'securitas', cuja missão é impedir a subida deste caminho, a pé ou de carro, por parte de pessoas não autorizadas. Quem são as pessoas autorizadas? Perguntas bem, porque nós não somos, de certeza. São, em primeiro lugar, os residentes e comerciantes do Bairro Civil de Santa Cruz do Castelo, mediante papel passado pela Junta de Freguesia. Em segundo lugar os fornecedores do restaurante do Castelo, que fazem os seus abastecimentos pela 'porta dos fundos', onde vimos há pouco um senhor à espera que o deixassem entrar. Por fim, Sua Excelência o Sr. Presidente da Câmara, seus colaboradores próximos e os convidados mais VIP, quando se trata de jantares na Casa do Leão, no castelo. Toda esta gente fica assim dispensada de levar o carro para o dédalo complicado das ruas que levam até ao Chão da Feira, e evitam exporem-se demasiado próximo dos olhares dos transeuntes ao fazer a curva da porta de S. Jorge. Por este caminho "reservado", podem chegar com toda a discrição e sem se sujeitarem a quaisquer problemas de trânsito.
O 'securitas'  que, quando visitámos o Menino Deus, não nos deixou subir, vê-nos agora descer. Como a sua jurisdição só se aplica às subidas, fica a ver-nos passar, impassível.


Como não estamos autorizados a voltar para cima pelo mesmo caminho, teremos que ir dar a volta. Sossega que não é longe, vais ver. Comecemos por descer o Menino Deus até à Rua dos Cegos. Lembras-te de já termos passado por esta esquina com a casinha seiscentista?

Tínhamos ficado de voltar aqui, para enveredarmos por aquela passagem que vai dar ao Pátio de D. Fradique, a dois passos. Sim! Desta vez é que lá vamos!


Seguimos a Rua dos Cegos. Mas em vez de continuarmos em frente, rumo que nos levaria ao Beco do Maldonado que desce a S. Tomé, entramos na porta inferior do Pátio de D. Fradique, à direita daquela senhora e da sua menina.

Esta porta, que aqui vemos pelo lado de fora e depois pelo lado de dentro, no seu estado lastimável, escorada por tubos metálicos que adiam a sua ruína, como que antecipa aquilo que vamos encontrar imediatamente a seguir.

Mas antes de avançarmos mais, apenas um apontamento toponímico. Aparentemente quem deu nome a este local foi D. Fradique Manuel, que em 1518 era fidalgo do Rei D. Manuel I.


Iniciando a subida, à nossa esquerda vemos uns casebres em ruínas, com as portas entaipadas. Mas por detrás destes, no alto, vemos um edifício imponente que incorpora de forma visível um troço da muralha. Estamos a ver as traseiras do Palácio Belmonte. Repara que a sua parte mais alta é na realidade uma torre.
Olhemos melhor. Não se trata de um edifício, mas sim de um conjunto complicado de construções. E repara: no outro extremo existe outra torre. Na realidade o Palácio foi encaixado numa fatia entre duas torres, com a muralha encravada dentro de si. E aquele arco ali à frente atravessa-o de um lado ao outro, até ao Chão da Feira. Mas tem calma que não vamos já.
E antes de vermos o resto por aqui, olhemos uma última vez para trás, para a porta por onde entrámos.


Aqui à nossa frente vemos a estranha desolação do Pátio de D. Fradique, com os seus casebres totalmente arruinados; neste local já não habita ninguém. Este espaço corresponde às antigas hortas do Palácio, anexadas pelos populares quando a aristocracia debandou destas paragens. De facto, antigamente o nome de Pátio de D. Fradique correspondia apenas ao pátio no interior do palácio.

Repara ali, no alto sobre as ruínas, a tela azul do prédio que vimos, entubado, na Rua do Recolhimento.
 
   

Ali ao fundo, do lado oriental, o pátio parece ter uma terceira saída, além daquela por onde passámos e do arco do palácio onde ainda iremos. Será que aquelas escadinhas, rudes mas bem torneadas, vão dar a alguma saída? De repente senti o olhar turvado. Por alguns instantes, pareceu-me que o tempo recuara e que este local ainda tinha vida própria. E fiquei com a sensação nítida de que estava a ser observado por uma jovem, de vestes antigas e olhar grave, talvez tão perturbada comigo como eu com ela. Que estranha impressão.
Recordo que atrás dela abria-se um arco, com roupa estendida por detrás. Hoje uma grade barra-nos o acesso, mas se pudéssemos por ali passar, iríamos ter ao Beco do Padeiro, e dali à Rua do Recolhimento no Bairro Civil do Castelo.

Voltemos então o nosso olhar de novo para o Palácio Belmonte, cuja construção parece remontar ao século XV. Entrando pelo arco chegamos ao pátio interior onde se vê o portal nobre que conduz ao interior do palácio. Hoje não vamos lá dentro.
E saímos, atravessando o bonito portal do século XVII. Estamos de novo no Chão da Feira.


No Chão da Feira, mas contígua ao Palácio Belmonte, abria-se uma antiga porta da Alcáçova, cujo nome primitivo desconheço, mas que se veio a chamar de Porta de D. Fradique. Hoje está entaipada por dentro e gradeada por fora.

Repara ali naquele canto que agora faz de esplanada no Verão. À direita, encostado ao palácio, um inacreditável urinol; mais uma singularidade a juntar a tantas que já vimos nestes nossos Percursos.

Aproveitemos a oportunidade do recanto, menos por necessidade e mais pelo seu encanto.

Este passeio que fizémos pelo Pátio de D. Fradique deixou-me angustiado. Como é possível que se mantenha naquele estado ruinoso como se de coisa sem préstimo se tratasse? Será por desleixo ou por especulação imobiliária? Sabemos que todo o recinto tem serventia pública de passagem, razão pela qual pudemos atravessar a zona do Palácio Belmonte que é propriedade privada. Ficámos a saber que a zona das Hortas de D. Fradique são propriedade da Câmara Municipal de Lisboa. Descobrimos a Proposta nº 71/2003 da CML que defendia:  «Reabilitar (...) o Pátio D.Fradique, criando novas valências para os moradores e visitantes». Apurámos que na reunião da Câmara de 19 de Fevereiro de 2003 a proposta foi rejeitada. Perante isto, a hipótese de especulação imobiliária começa a fazer cada vez mais sentido.

9

Votos

Contra

8 PPD/PSD + 1 CDS/PP

7

Votos

Favor

3 PS + 4 PCP

1

Voto

Abstenção

1 PS


Voltamos a atravessar o Chão da Feira e a Porta de S. Jorge. Deixamos à nossa direita o Bairro Civil e preparamo-nos agora para entrar na antiga zona militar.

 

A SEGUIR...6

XI - O CASTELO (EM CONSTRUÇÃO)
 

COMENTA