SETE-PEDRAS

 

Descoberta por volta de 1471 por marinheiros de Fernão Gomes, a ilha de S. Tomé foi doada a João Paiva em 1485, sendo estabelecido no nordeste da ilha o primeiro núcleo urbano: «Povoação». A sua localização foi condicionada pelos objectivos pré-estabelecidos habituais: condições para a implantação de um porto com condições de defesa; condições para plantar culturas em terrenos próximos; existência de acessibilidade ao interior e bom abastecimento de água potável. É naquele local que ainda hoje se situa a cidade de S. Tomé.

Logo no ano seguinte à fundação de «Povoação», foi introduzida a cana-de-açúcar e rapidamente a economia da ilha começou a girar em torno do açúcar, cujo cultivo e engenhos exigiam elevado número de escravos provenientes das costas africanas. Cedo, porém, a este comércio negreiro foi acrescida uma outra finalidade: a ‘armazenagem’ de escravos enquanto ali aguardavam transporte para outros destinos. Para o efeito formaram-se as ‘fazendas de el-rei’ guardadas por caseiros e onde eram mantidos os escravos até ao dia do embarque. O lapso de tempo, que decorria entre a chegada (de África) e a partida para os portos importadores (Portugal, Antilhas e Ilha da Madeira), correspondia à estadia de grandes quantidades de escravos no espaço insular.

Logo em 1499 o capitão-donatário dá conta de numerosos escravos fugidos para o mato ou para o mar. Também as revoltas foram precoces: em 1517 nas fazendas de uns fulanos Lobatos os escravos amotinaram-se e fizeram grandes destruições. A partir de 1530 começou a chamada «guerra do mato», com expedições organizadas pelos governadores e fazendeiros, com vista à captura dos negros do mato. No ano seguinte, a expedição que foi enviada contra eles foi vencida e a partir daí todas as fazendas próximas da floresta ficaram desertas, com receio dos assaltos vindos do interior da ilha. A coisa estava de tal forma que em 1535 temia-se um assalto à cidade capital. Os colonos pediram ajuda militar de Lisboa e as expedições recomeçaram. Mas a instabilidade estava instalada; por um lado era impossível defender engenhos dispersos, por outro já não eram possíveis perseguições em profundidade, pelo que a resistência dos colonos se concentrou no nordeste, em torno da capital. A este estado de coisas, iria acrescer a crise na metrópole resultante da morte de D. Sebastião em Alcácer-Quibir, em 1578.

Controlando praticamente toda a ilha, os negros decidem-se em 1595 pelo assalto à capital. Armados com flechas, são sustidos a custo pelas armas de fogo e o seu líder, Amador, foi apanhado e enforcado.

A última guerra ocorreu em 1693 quando foram vencidos pelo capitão de mato Mateus Pires, tendo aceite um acordo de tréguas que sempre cumpriram. Depois da sua derrota ficaram nos seus terrenos

...onde nenhum estranho se aventurava a entrar, sob pena de não sair com vida.

Entretanto a instabilidade social levara os grandes proprietários a debandar para o Brasil. As terras não eram cultivadas e os antigos casarões caíam em ruínas. A própria capital tinha sido transferida para Stº António, na ilha do Príncipe, afastando-se também assim de S. Tomé o próprio centro do poder administrativo.

Nesta conjuntura, a propriedade outrora ocupada pela cultura açucareira foi passando para as mãos de mulatos, descendentes dos primitivos colonos, que deixaram de produzir os géneros coloniais para se dedicarem a uma agricultura de subsistência, baseada no milho, mandioca, legumes e frutos. Mas na zona sul da ilha, onde as fazendas nunca tinham conseguido penetrar, viviam os Angolares, consolidando a sua autonomia. Quem eram estes Angolares?

Os Angolares eram um povo que habitava a zona sul de S. Tomé, em condições de grande isolamento graças à inacessibilidade do terreno e à densa e impermeável floresta que cobria grande parte da ilha. Com língua própria, com características anatómicas diferenciadas dos restantes grupos, com identidade socio-cultural própria, de economia de subsistência com desinteresse pela agricultura, era reduzida - senão nula - a dependência do exterior. O que reforçava a marginalidade, por um lado imposta, mas igualmente bem assumida como condição de sobrevivência.

Segundo a maioria dos autores, os Angolares teriam saído do mato pela primeira vez em 1574, quando começaram a assaltar as plantações e a própria cidade, e seriam um factor importante no colapso da indústria açucareira em S.Tomé. Só no último quartel do século XIX foram forçados a desocupar os vastos territórios por onde se estendia a indiscutida autoridade do seu rei negro.

Na história do povo angolar podem distinguir-se três períodos diferentes: um de 153 anos de guerrilha e pressão sobre o nordeste da ilha, outro de 185 anos ocorrido desde o reconhecimento da autoridade do Rei dos Angolares, durante o qual o reino angolar viveu em paz, e os últimos cem anos em que que os angolares, espoliados das suas terras, se fixaram junto ao litoral, dedicando-se à pesca.

O último Rei dos Angolares, Simão Andreza, segundo uma fotografia divulgada por Almada Negreiros, em 1895

Se a origem dos outros estratos que compõem a população santomense é mais ou menos determinável e consensual, o mesmo não se pode dizer dos Angolares. Sobre a sua origem, há pelo menos três hipóteses diferentes: a hipótese do naufrágio, a hipótese da prioridade africana e a hipótese de escravos fugidos.

O NAUFRÁGIO

A primeira informação sobre o naufrágio é de cerca de 1715 e refere que o interior da ilha é

...deserto de moradores, somente habitam uns negros gentios que antigamente faziam muito dano às roças...

acrescentando

...de que há tradição são estes procedidos de um navio que antigamente dera à costa naquelas praias.

A referência a Angola surge em 1734

...dando à costa num navio de Angola carregado de escravos em uma praia desta ilha a sudeste, escapou a maior parte dos escravos, e fizeram a sua aldeia em Pico, e foram multiplicando de tal sorte ...

E em 1770

...está huma ensiada aonde os negros brabos, que chamam angolas vem fazer sal.

Uma fonte de 1842 já avança uma data aproximada:

Não se sabe com individuação em que ano deu à costa o navio (...) É de presumir que foi pelos annos de 1540 até 1550, visto que os filhos dos primeiros acompanharam seus pais no ataque e roubo de muitos engenhos, no anno de 1574.

A expressão «Angolares» aparece pela primeira vez em 1836 e o local exacto do naufrágio é mencionado em 1844, informando que

...se salvaram a nado de um navio negreiro que naufragara junto à costa oriental, nos ilhéus de Sete-Pedras, por volta de 1544, e que trinta anos mais tarde caíram sobre a cidade e os seus engenhos do nordeste, que pilharam.

Em 1882 ficamos a saber o número de sobreviventes

...naufragando nos rochedos das Sete-Pedras em um navio vindo de Angola, ganharam a costa e se refugiaram nas mattas. O seu número inferior a 200 em meados do séc. XVI eleva-se hoje a cerca de 2000.

Daqui em diante, a maioria dos autores continua a transmitir a história do naufrágio sem sequer a questionar, aceitando despreocupadamente a narrativa tradicional da origem dos Angolares. Por exemplo, um livro publicado em 1993 pela cooperação portuguesa, diz assim:

Os angolares são, como se sabe, os descendentes de um grupo de náufragos arribados a S. Tomé no séc. XVI...

 

A PRIORIDADE AFRICANA

Esta hipótese questiona que a ilha de S.Tomé fosse desabitada aquando da sua descoberta em 1471, defendendo que a presença dos Angolares é anterior à chegada dos portugueses.

Em 1975, os defensores da prioridade africana propunham que os Angolares seriam uma ramificação dos Bantos que se teria fixado nas regiões do Gabo e do rio Muni, tendo migrado posteriormente para as ilhas do Golfo.

Rejeitam a tese do naufrágio apontando que os próprios Angolares nas suas lendas não se referem a nenhum naufrágio dos seus antepassados e perguntam:

admitindo que os bantos tenham navegado até Fernão Pó, porque não teriam avançado um pouco mais, até S. Tomé?

Mas por outro lado socorrem-se paradoxalmente da hipótese do naufrágio para chamar a atenção para a questão de

como poderiam os náufragos vencer a distância entre os rochedos de Sete-Pedras e a costa? Teriam de ser indivíduos habituados ao mar ou a grandes rios, pois para se salvarem era indispensável que soubessem nadar.

Mais recentemente, em 1985, a argumentação acrescentava que

O território e a população pequenos das ilhas fizeram com que os autóctones fossem liquidados, dispersos ou expulsos pelos invasores para as regiões não exploradas, no primeiro período, pelos europeus. Os colonialistas queriam apagar a memória dos primeiros habitantes das ilhas e declararam-nas desertas.

Mas em breve os portugueses teriam de convencer-se da presença das pessoas que apareceram em S. Tomé independentemente deles e sentir por experiência própria a sua cólera e intransigência para com a subjugação. Então estas pessoas foram declaradas descendentes dos escravos que se encontravam no navio naufragado junto às costas de S. Tomé nos anos 40 do século XVI, e receberam o nome de «angolares».

Neste sentido, nos anos 80 até foi feita por um jornalista português uma viagem Heyerdahliana, de canoa, de S. Tomé para o Príncipe, e dali para a Nigéria, para ‘provar’ que era possível os antepassados dos Angolares terem feito a viagem nas suas próprias embarcações. Aparentemente não ocorreu a ninguém que a demonstração seguia o caminho inverso daquele cuja tese queria provar.

 

DESCENDENTES DE ESCRAVOS

Esta última hipótese socorre-se de dados históricos mas também linguísticos. Por um lado segundo a investigação linguística do léxico da língua dos Angolares, a «lunga n’golá» revela um crioulo com 65% de palavras de origem portuguesa (e 14% de termos de origem banto) o que não é muito consistente com a situação de marginalidade e isolamento em que viveram durante centenas de anos. Por outro lado, enquanto existem numerosos registos do séc. XVI que relatam fugas de escravos para o mato, não existe nenhum que mencione o naufrágio.

A título de exemplo, e segundo registos do séc XVI, entre 1514 e 1527 conseguiram escapar 684 escravos, mais de 5% dos 13 mil e quinhentos que chegaram à ilha. Em 1530 fugiram mais 230 e em 1531 eram suficientemente numerosos para vencer a expedição enviada pelos fazendeiros.

Estes escravos fugidos, ao contrário dos europeus, sabiam adaptar-se e sobreviver nas florestas de obós do sul da ilha. Uma pista para a diferenciação dos Angolares pode vir de um relato dos holandeses, que ocuparam S. Tomé entre 1641 e 1648, que refere que os fazendeiros portugueses preferiam os escravos vindos de Accra, perto de S. Jorge da Mina, sobre os vindos do rio Calabar, Nigéria, porque estes muitas vezes fugiam no mato ou com canoas ao mar.

 

OPINIÃO

Se houve naufrágio, dificilmente os náufragos venceriam os cerca de 4 km que separam os rochedos de Sete-Pedras do litoral de S.Tomé, ainda por cima com correntes contrárias. Mesmo que tivesse havido naufrágio num local da costa, decerto os sobreviventes não constituiriam a base demográfica dos Angolares; apenas se juntariam a grupos de escravos fugidos. Sem qualquer dado concreto que a corrobore, a hipótese do naufrágio parece muito pouco provável.

A hipótese da prioridade africana assenta mais no nacionalismo santomense do que em qualquer evidência, certamente com o objectivo de sedimentar o novo Estado-Nação, remetendo a sua origem para um mitológico passado pré-colonial remoto, num paralelismo forçado com a própria História do continente africano.

Na época em que os portugueses chegaram ao Golfo, apenas era habitada a ilha de Fernando Pó, distante 32 km do litoral dos Camarões e visível do continente. E se os Angolares descendessem de um povoamento precoce por parte de africanos, por que razão não há Angolares na ilha do Príncipe, nem em nenhuma outra do Golfo da Guiné?

Por outro lado, apesar dos africanos terem construído embarcações apropriadas para a navegação à vista de costa e fluvial, não tinham resolvido os problemas de navegação oceânica de longa distância.

Finalmente, se a chegada dos Angolares se antecipou à dos portugueses, como é possível que a sua língua materna contenha tantos elementos de português?

Perante tanta fuga de escravos documentada, é de estranhar que nem os defensores da hipótese do naufrágio nem os da prioridade africana, nunca tenham levantado a questão do que aconteceu com tantos escravos refugiados no mato. Não a levantaram, embora seja conhecido que houve escravos fugidos que constituíram os seus quilombos no Brasil, nas Antilhas, no Suriname e em todas as sociedades em que houve escravidão.

 

Maio, 2001

C O M E N T A