A Lenda

 

Diz a lenda que Lisboa foi fundada por Ulisses. Após a guerra de Tróia, Ulisses e os seus companheiros teriam sido surpreendidos por uma tempestade junto a Gibraltar, franqueado as Colunas de Hércules e rumado a norte, tendo sido os primeiros gregos a avistar as costas de França e de Inglaterra. Nessa viagem, no fim da qual encontrou a morte, uma das paragens do herói teria sido no estuário do Tejo, pelo que o antigo topónimo Olissipo teria precisamente o significado de «onde Ulisses passou». Trata-se de um dos mitos preferidos dos poetas portugueses da Renascença, ao qual Camões consagrou várias estrofes d’Os Lusíadas, e cujas referências remontam a um autor romano, Caius Julius Solinus, a quem se devem muitas outras lendas. O assunto foi tratado por Dante, que na sua Divina Comédia se refere à tempestade, mas que não acreditava que Ulisses tivesse passado o estreito de Gibraltar.

A descoberta de prováveis vestígios de um templo grego na colina junto ao Tejo fez com que os eruditos portugueses do séc. XIX recuperassem a lenda da fundação de Lisboa por Ulisses, pelo que a partir daí o mito passou a fazer parte da história da cidade. Contudo, que eu conheça, não existe nenhuma estátua em Lisboa dedicada a Ulisses.

 

Pré-história e Proto-História

 

Na região de Lisboa o primeiro povoamento humano remonta ao Paleolítico Superior. Aqui, grupos de caçadores encontraram uma grande variedade de sílex e quartzo necessários para o fabrico dos seus utensílios. Ao longo do Neolítico, nascentes de água quente atraíram outros grupos que se foram sedentarizando, como se prova pela cerâmica campaniforme e por alguns vestígios de fortificações. Os objectos encontrados, ídolos cilíndricos decorados, lúnulas, facas, pontas de flecha, traduzem uma clara influência mediterrânica, demonstrando que os navegadores daquele mar interior subiam a costa atlântica até à foz do Tejo. Foi também descoberta uma povoação com vestígios do Calcolítico e das idades do Bronze e do Ferro, evidenciando tratar-se de um lugar de incontestável ocupação sistemática.

 

 Época Histórica

 

Há três mil anos, toda a fachada atlântica chamava-se Ofiuza, terra da serpente, a guardiã dos ritos abissais.  Finisterrae, situada no extremo do mundo habitado, a sua paisagem rude e primitiva inspirou várias outras lendas, cada uma mais assustadora que a outra. No séc. I d.C., o geógrafo grego Estrabão afirmava que nestes lugares o Sol mergulhava instantaneamente no mar Tenebroso como uma bola gigante. O poeta romano Ovídio, nas suas Metamorfoses fala do infeliz Faetonte que perdeu o domínio do carro do Sol e provocou a combustão do universo. Como consequência disso, grandes incêndios varreram a superfície da terra, secando os rios, perdendo-se assim, derretido pelas chamas, o ouro que o Tejo transportava no seu leito. Como recordação da lenda sobre o precioso metal que repousaria nos seus fundos, a parte do Tejo defronte de Lisboa recebeu o nome de Mar da Palha.

A primeira descrição dos habitantes desta região data do séc. VI a.C. e menciona os povos Conii e Cempsi. Essa referência surge no Périplo de Massala, um manual de navegação conhecido pelo nome de Ora Maritima, chegado até aos nossos dias na transcrição tardia de Rufus Festus Avienus (séc. IV. d.C.) Os historiadores gregos, habitualmente tão prolixos sobre as navegações gregas no Mediterrâneo Ocidental, não se referiram a esta região da Ibéria; foi preciso esperar pelos Fenícios para que a colina sobranceira ao Tejo entrasse na História.

 

Olisippo, a fenícia

 

Sabe-se hoje que por volta de 1200 a.C., mercadores vindos de Tiro fundaram uma povoação, talvez um simples entreposto ou feitoria, ao qual deram o nome de Olisippo (Alis Ubbo, a «enseada amena»?). Até 1990, este topónimo de origem fenícia permaneceu como único sinal revelador das antigas origens mediterrânicas de Lisboa. Nessa altura, uma série de escavações, realizadas no claustro da Sé Catedral, permitiu a descoberta de vestígios fenícios ali adormecidos desde os séculos VIII e VII antes de Cristo, a poucos metros de profundidade. Foram estes mesmos navegadores que baptizaram o rio Dagui, nome que em fenício significaria «pesca abundante», que pode ter dado a forma Tagus, e depois Tejo. Há registos da presença fenícia também em Alcácer do Sal, Setúbal, Sines e Bensafrim, no Algarve, que são prova da extensão da colonização fenícia no território português.

 

Olisippo, a grega

 

Os gregos, que conheciam já as rotas marítimas, não tardaram a aportar à Península. No séc. VI a.C., desembarcam na margem direita do Tejo. A Olisippo desses tempos parece ter conhecido grande prosperidade. Da sua inexpugnável cidadela, os habitantes observavam as idas e vindas das pequenas embarcações que navegavam no estuário, vigiavam os grandes navios que, no final de uma grande viagem, surgiam do lado da barra. Além da pesca viviam do comércio, do saque, da extracção de sal e da agricultura: o seu vinho era já exportado. Contudo, foi a criação de cavalos que tornou a povoação célebre fora das fronteiras da Ibéria. Eram conhecidos no Mediterrâneo os estranhos poderes do vento Favónio, que soprava nestas paragens: os potros das éguas por ele fecundadas à beira do Tejo corriam tão depressa que ninguém os conseguia apanhar.

 

Olisippo, a romana

 

É depois da conquista romana que Lisboa se torna uma verdadeira cidade. Desembarcados em 219 a.C. nas costas da Ibéria para combater os Cartagineses instalados no sul de Espanha, no início do século II a.C. já são donos e senhores de todo o litoral até ao vale do Tejo. Contudo, o interior da península opões-lhes uma feroz resistência. Foram precisos dois séculos para conseguirem subjugar os callaeci, entrincheirados nos seus castros cujas ruínas ainda se podem ver nos planaltos do interior do país. Desta cultura castreja destaca-se uma personagem emblemática, Viriato, chefe de um povo de origens obscuras, os Lusitanos. Instalado nas montanhas do centro de Portugal, Viriato comandou, desde 147 até à sua morte em 139 a.C., a resistência contra os romanos. Salazar fez dele e dos lusitanos a encarnação das virtudes da independência face à opressão estrangeira.

Nas operações de pacificação, Decimus Junius Brutus, cônsul da Hispânia Ulterior, tenta abrir uma passagem para o interior da Ibéria e manda erguer fortificações (oppida) na margem direita do Tejo. Os habitantes de Olisippo, a maior povoação da região, não tentam resistir. Colaboram com o invasor e juntam-se às legiões romanas que perseguem os povos do norte de Espanha. Um ano depois da morte de Viriato, a cidade é cercada por uma muralha, a cidadela, de que ainda subsistem hoje alguns vestígios no alto da colina.

 

Olisippo Felicitas Julia

 

No século I antes da nossa era, é concedido a Olisippo o estatuto de municipuim civium romanorum. Os habitantes da cidade passam a usufruir dos mesmos direitos que os cidadãos de Roma e gozam de grande autonomia. As outras cidades da Lusitânia, a grande província criada entre os anos VII e II a.C., depois do desmembramento da Hispânia Ulterior, não foram abrangidos por esses privilégios. A cidade, onde a romanização avança a passos largos, estende o seu domínio numa extensão de 40 Km para norte e oeste das suas muralhas. As vilas (vici) e aldeias asseguravam-lhe já o abastecimento em produtos hortícolas e mão-de-obra. Mas é verdade que Olisippo não era a capital da Lusitânia e que a sua população, de origens mediterrânicas muito miscigenadas, tinha pouca gente oriunda de Itália. Contudo, tinham a preocupação de alimentar os mitos que aumentavam o seu prestígio, e enviam uma embaixada ao Imperador Tibério para, entre outras singularidades, lhe referirem o aparecimento de sereias, tritões e diversos monstros marinhos nas águas do oceano ali bem perto.

 

As primeiras ruínas romanas de Lisboa foram postas a descoberto apenas no século XVIII, pouco antes do terramoto de 1755. Mas foi sobretudo durante os trabalhos de reconstrução da cidade que se registou uma sucessão de descobertas. Em 1770 descobriram-se as chamadas termas da Rua da Prata. No ano seguinte, próximo daquele local, surgiram os Banhos dos Cassios. Um ano depois foi encontrado o teatro de Olisippo, construído na época de Augusto e reconstruído no tempo de Nero, no ano de 57 d.C. Contudo, os diferentes achados não passavam de peças de um puzzle misteriosos e não foi possível fazer mais do que um vago levantamento da antiga cidade, quer se tratasse de fragmentos de um marco militar dedicado a Marco Aurélio, de epígrafes honoríficas ou votivas, de estelas comemorativas ou funerárias, ou de simples objectos domésticos: frascos, cerâmica, lucernas, terrae sigillatae encontradas nas necrópoles romanas da Praça da Figueira ou do Poço das Cortes, nos Olivais.


A localização exacta do porto de Olisippo permanece misteriosa. O mais importante vestígio da existência de um ancoradouro é uma plataforma posta a descoberto em 1922 na descida para o Arco Escuro (antiga Porta do Mar), que, até ao fim da Idade Média, constituiu a principal porta da cidade para o cais da Ribeira. Outros restos de um cais, mais difíceis de interpretar, foram encontrados no Rossio.

 

Sobre os templos de Olisippo dispomos de mais informação. Eram consagrados a Cibele, Júpiter, Minerva, Diana e Tétis. Alguns anos depois, construíram-se igrejas cristãs sobre as ruínas desses templos: a pequena igreja de S.Miguel, em Alfama, substituiu o templo de Júpiter; a Sé foi construída no local de um antigo templo e a igreja de Santo António sobre outro lugar de culto pagão. Mesmo os ritos pré-romanos sobreviverão durante muito tempo. Na pequena capela de S. Gens, hoje Senhora do Monte, um pedaço de rocha era associado à fertilidade, célebre pelos seus poderes mágicos, fazia com que ainda no século XX as mulheres das redondezas se fossem sentar nela na esperança de ter um parto fácil. O esporão rochoso onde se ergue actualmente a igreja da Nossa Senhora da Penha de França, já longe da cidade antiga, era um lugar do culto da serpente, ou do lagarto, que vem da pré-história e parece não ter sido completamente erradicado pela romanização ou sequer pela cristianização.

 

O forum estava certamente a meio caminho entre o Tejo e o alto da colina. Materiais de um monumento que fazia parte do forum foram utilizados na construção de um templo dedicado a Minerva ou a Diana, que ainda existia na época dos visigodos. O relevo acentuado não impediu a construção de casas de vários andares, as insulae. Uma grande via romana descia do alto da cidadela até ao Tejo. As lajes de pedra branca e lisa, postas a descoberto no claustro da Sé, faziam parte dessa via.

 

No séc. III, a crise do Império Romano atinge Olisippo, cujas autoridades se vêem na necessidade de reforçar as muralhas, sacrificando alguns bairros, sobretudo na zona em frente ao Tejo, numa extensão de quinhentos metros.

 

 

Olisippo, a cristã

 

Na segunda metade do século IV o Império Romano enfraquece, o cristianismo difunde-se na Ibéria e atinge Lisboa. Surgem então místicos e heréticos, e a cidade conta com número impressionante de mártires. Na freguesia de Santos, vários edifícios são consagrados aos três mártires mais importantes: Verissimo, Maxima e Julia. A capela de Nossa Senhora do Monte é consagrada a S. Gens, o primeiro arcebispo de Lisboa, supliciado juntamente com uma centena de companheiros. Estes religiosos distinguem-se por uma grande espiritualidade, mas também pela intransigência doutrinal. Potâmio, bispo de Lisboa, é convocado pelo imperador Constâncio, durante o Concílio de Nice.

 

Olisippo, a celta

 

No início do século V, o Império sofre o ataque das primeiras invasões celtas. A partir do ano 409, os Alanos, seguidos dos Vândalos e dos Suevos, atravessam os Pirinéus em vagas sucessivas, e a anarquia alastra e instala-se na Península. Sobre essa época, Isidoro de Sevilha faz descrições impressionantes, eventualmente exagerados: massacres de populações, incêndios, epidemias de peste, pilhagens, desorganização da máquina administrativa e do poder político do Império. Acossadas pela fome, as mulheres comem os próprios filhos e os animais selvagens devoram os cadáveres dos que morreram devido à peste. A Península está a ferro e fogo, e Olisippo não é excepção. Virada para o oceano, apesar da sua localização periférica está demasiado ligada ao resto da Península para que as suas riquezas escapem à cobiça dos invasores. Para evitar a entrada dos assaltantes, os moradores foram obrigados a sacrificar os seus edifícios mais belos, reforçando apressadamente a cerca com pedaços de pilares e capitéis. O teatro foi desmantelado, bem como uma parte dos templos.

Mas os invasores depressa se sedentarizaram. Vários documentos da época sublinham a estranha mistura de vencedores e vencidos, uns e outros a abandonarem as suas actividades guerreiras em favor do trabalho nos campos. Mas a paz é ilusória. Em 411, os Celtas partilham a Península: a Lusitânia cede perante os Alanos. Cercada, Olisippo vê-se obrigada a negociar novamente com invasores. Em 416, quando o rei visigodo Valia vem combater os Alanos da Lusitânia e os Vândalos da Bética, a habilidade diplomática dos habitantes de Olisippo é de novo posta à prova. Brutal, a guerra prossegue até à derrota dos Alanos, cujos sobreviventes acabam por juntar-se aos Vândalos. Porém, a paz não fica ainda restabelecida. Os Suevos fazem incursões no Oeste da Península e em 469 pilham Olisippo. Este saque alternado não ficaria ainda por aí e a trégua é de curta duração. A partir de 507 abatem-se sobre as muralhas novas vagas de visigodos recém chegados à península, e que provocariam a queda do reino suevo. Em 585, a Hispânia é unificada pelo rei visigodo Leovigildo, e a paz ficará estabelecida a partir de 589, data em que o filho de Leovigildo, Recaredo, renuncia solenemente ao arianismo no Concílio de Toledo.

 

Ulixbona, a visigótica

 

As marcas de um século de dominação visigótica estão ainda escondidos no subsolo de Lisboa. No exterior, apenas alguns troços de capitéis e fragmentos de pilastras de calcário, decorados com estilizados desenhos de vegetais, evocam a presença desses povos. Conhece-se melhor outra herança: o Codex Wisigothorum, sistema social por eles imposto sobre as ruínas da administração romana, que introduziu o «direito do sangue» ao mesmo tempo que proibia casamentos entre Visigodos e Hispano-romanos. Desde a conquista, os habitantes de Ulixbona (ou Ulixbuna) são obrigados a ceder dois terços das suas propriedades aos visigodos. Reduzida à servidão, a população romanizada é obrigada a cultivar as terras dos novos senhores, que deste modo se podem entregar ao ofício das armas e satisfazer as suas clientelas militares. Ao fim de algumas décadas, está cristalizado um regime senhorial em todo o oeste da Ibéria, acompanhado da ruralização do território.

Contudo, os ricos mercadores de Bizâncio, da Síria ou do Norte de África, não deixam Lisboa e continuam a fazer os seus negócios.

 

Al-Usbuna, a muçulmana


As invasões muçulmanas põem um ponto final no reino visigodo e na decadência de Lisboa. Em 711 as tropas do berbere Tarique atravessam o estreito de Gibraltar e em vagas sucessivas ocupam os portos do sul da Península. O primeiro a seguir pelo lado ocidental, utilizando as vias romanas, foi Abdelaziz ibn Musa, filho de Tarique. De uma assentada submete Évora e Santarém, atravessa o Tejo, segue o vale e atinge Coimbra. Os cronistas muçulmanos não são pródigos em pormenores, mas a progressão dos invasores é fácil de seguir: Santarém e Coimbra oferecem resistência, mas sobre Lisboa há um estranho silêncio. Na verdade, Lisboa entregou-se sem combater, e os seus habitantes receberam um tratamento correspondente.

Os testemunhos árabes são tardios e em segunda mão. Mas todos gabam a fertilidade dos campos em redor da cidade e o clima da região. O poeta Ibn Muqana al-Ushbun, originário de Lisboa, compara as margens do Tejo com as do vale do Nilo. Ar-Razi refere que «Quando o Tejo transborda, inunda e cobre a planície; mas quando as águas baixam, os camponeses fazem sementeiras serôdias e a humidade do solo permite-lhes recolher os grãos antes das primeiras chuvas». No século VII, Idrisi refere-se às nascentes de água quente e Kitab fala de uma cidade cercada de ricos pomares. Al-Himyari gaba as muralhas da cidade, «notáveis e bem construídas. É uma cidade antiga, totalmente implantada junto ao mar, com as ondas a rebentarem nas suas muralhas».

Al-Usbuna reencontra o prestígio que a ocupação visigótica tinha destruído. Os novos senhores recuperam as defesas da cidade e transformam-na de acordo com o modelo muçulmano; alcácer, medina e hierarquização das vias de acesso. A fortaleza que ainda se ergue no alto da colina é reconstruída em vários locais, as suas muralhas são reforçadas e as captações de água protegidas com couraças. É também reconstruída a Alcáçova, a residência do governador. O bairro de al-Alhaman (a fonte), a futura Alfama, ergue-se sobre os escombros do antigo labirinto.

Os muçulmanos permaneceram mais de quatro séculos em Lisboa, mas a sua presença deixou poucos vestígios. Restos da muralha, algumas pedras da grande mesquita, fragmentos de cerâmica e um tesouro de moedas escondido nos esgotos romanos são os únicos sinais dessa ocupação. E as inscrições do Corão gravadas nas pedras tumulares de mármore branco não revelam o nome dos mortos.

Sobre a conversão da população de Lisboa ao Islão, as fontes são inexistentes mas é provável que numerosos habitantes tenham aproveitado para se libertarem da tutela dos visigodos, vendo o Islão como uma religião mais maleável. Durante vários séculos, os muwalladi, ou convertidos ao Islão, coabitam com os cristãos. A cidade alberga várias comunidades cujas relações parecem ter sido marcadas por tolerância mútua: arabo-berberes, muwalladi, moçárabes (os que adoptam a cultura árabe mas continuam cristãos), judeus e cristãos sem mistura. Estes, para manterem o seu estatuto de dhimmi, podem manter a sua religião mediante o pagamento de um dízimo.

 

Alvo de assaltos repetidos

 

No século VIII o sul da Península é atingido por levantamentos, rebeliões, sedições e lutas intestinas, que constituem um sinal de esperança para os cristãos. Depois de terem recuado perante os berberes, decidem passar ao ataque. Reagrupados nas Astúrias, os exércitos asturiano-leoneses começam a dirigir-se para sul; é o início da Reconquista, que irá transformar a Península num imenso campo de batalha durante quatro séculos.

Quanto a Lisboa, a reputação da sua opulência torna-a alvo dos reconquistadores. Em 796, Afonso II, rei das Astúrias, atravessa o Tejo, saqueia a cidade e envia a Carlos Magno o produto do saque. Entre cercos e ocupações, a cidade muda várias vezes de mão até que o rei das Astúrias a perde definitivamente em 811.

Quarenta anos depois é Ordonho I, rei das Astúrias e de Leão, que ocupa a cidade, embora por pouco tempo. Em 844 chega a Lisboa uma frota de navios Normandos. «Enchiam o oceano (...) e enchiam os nossos corações de medo e angústia», escrevia o cronista árabe. Os Normandos saqueiam as redondezas e atacam os sistemas de aprovisionamento de água potável da cidade. Enquanto a parte da muralha que dá para o rio cede aos ataques dos piratas, os lisboetas erguem engenhos para se defenderem e conseguem restabelecer o fornecimento de água. A frota normanda acaba por partir. Em 1093, é Afonso VI de Leão que tenta apoderar-se dela, mas sem sucesso. Dotada de uma capacidade de resistência invulgar, a cidade cura as suas feridas e, de cada vez, consegue reencontrar o seu dinamismo.

 

Invasões e sedições

 

No século XI, o califado de Córdova divide-se numa enorme quantidade de pequenos Estados muçulmanos independentes, as taifas (do árabe táifa, «estandarte»), e a cidade de Usbuna é anexada pelos Aftácidas, de Badajoz. Mas a progressiva reconquista cristã rapidamente vai fazer com que Usbuna se passe a encontrar na fronteira entre o Norte Cristão e o Sul muçulmano. Uma linha de demarcação de contornos pouco claros estendia-se então entre a depressão da bacia hidrográfica do Guadiana e o leito do Tejo.

No início do século XII abate-se sobre a Península uma nova vaga de incursões muçulmanas, a dos Almorávidas, comandados por Yusuf ibn Tachfin. Uns a seguir aos outros, cidades e reinos taifas caem nas suas mãos. Al-Usbuna capitula e entrega-se aos austeros «senhores velados do deserto», que viriam a permanecer na cidade cerca de trinta anos. Estalam numerosas rebeliões contra os Almorávidas, preparando o terreno para a dinastia que os havia de derrotar: a dos Almóadas. Estas graves sedições vão reforçando a autonomia de Lisboa, mas os seus habitantes por pouco tempo gozarão a liberdade.

 

Lisboa, a cristã

 

A sorte de Lisboa decidiu-se num pequeno território do noroeste peninsular, entre os rios Minho e Douro, a Terra Portucalensis. Por volta de 1070, esse território adquire um esboço de autonomia. Henrique, filho-segundo da nobreza da Borgonha, casa-se com Teresa, filha bastarda de Afonso VI de Castela e Leão, recebendo, a título hereditário, o Condado Portucalense como dote de casamento. Essa união é selada pelo nascimento de um filho, Afonso Henriques. De espírito independente, guerreiro nato e verdadeiro conquistador, enceta um combate sem tréguas contra os muçulmanos que atacam o condado. Adopta o método das razias almorávidas, destacando-se pelos golpes de mão que realiza à frente de um punhado de homens. O método acaba por resultar e em poucos anos, o condado anexa numerosas cidades e praças-fortes. Mas o objectivo de Afonso Henriques é subtrair a Terra Portucalensis à tutela do reino de Castela e Leão. Nesse sentido enceta negociações com o sucessor de Afonso VI, seu primo Afonso VII, autoproclamado imperador das duas Espanhas. Em 1137, um primeiro acordo consagra a separação do Condado Portucalense relativamente a Leão e, em breve, a sua independência, assinada em Zamora em 1143. Na confusão, Afonso Henriques proclama-se rei, colocando-se sob a protecção de Roma.

Ao mesmo tempo que tenta obter a independência, Afonso Henriques procura conquistar posições estratégicas na região fronteiriça formada por Sintra, Almada, Palmela, Santarém e Lisboa, cujo domínio lhe é indispensável para defender o reino, e expandi-lo. Nesse sentido, vem atacar regularmente Lisboa. A sua primeira tentativa, em 1137, é mal sucedida. Em 1140 lança-se novamente ao assalto da cidade, desta vez com a ajuda de um exército de cruzados que se dirige à Terra Santa. As tropas cristãs sofrem novo revés. Mas o rei insiste: volta a cercar a cidade em Junho de 1147 e, nessa altura, a sorte sorri-lhe. Al-Usbuna capitula a 23 de Outubro de 1147. Uma semana depois, a 1 de Novembro, dia de Todos-os-Santos, Afonso Henriques, entre quatro bispos, procede à cerimónia de purificação da mesquita e decide construir a Sé.

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