A EXPEDIÇÃO DE
GONÇALO VELHO, ou como o descobrimento dos Açores começou nas
Formigas
Nenhum
dos historiadores do séc XV, contemporâneos do Infante D. Henrique,
se refere ao descobrimento dos Açores, facto certamente digno de ser
mencionado caso tivesse ocorrido.
Um deles, Gomes Eanes de Azurara, tratando das ilhas de Santa Maria
e de S. Miguel em relação às da Madeira e do Porto Santo, diz
simplesmente:
| «...mandou
o Infante um cavaleiro, que se chama Gonçalo Velho,
comendador na ordem de Xpõ, que fosse povorar outras
duas ilhas que estam afastadas daquelas CLXX legoas ao
noroeste...»
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Eis a
única referência importante na qual um dos citados historiadores
alude àquelas ilhas dos Açores e ao navegador Frei Gonçalo Velho.
É o historiador açoreano Gaspar Frutuoso [1522-1591] que pela
primeira vez indica ter sido Gonçalo Velho o descobridor dos Açores,
afirmação que faz, mais de cem anos depois dos factos por ele
narrados. Mas não indica qual a fonte em que se baseia, o que
autoriza a pensar que pode ter-se socorrido da tradição oral.
Analisando o seu texto, fica a impressão que foram mais viagens de
'reconhecimento' e não de 'descobrimento' as viagens que Gonçalo
Velho fez às Formigas e a Santa Maria, por ordem do Infante.
Nas 'Saudades da Terra' lê-se:
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«...no ano do Senhor de 1431...tendo o dito Infante em
sua casa um nobre fidalgo e esforçado cavaleiro chamado
Frei Gonçalo Velho...de quem por sua virtude, grande
esforço e prudência tinha muita confiança, o mandou
descobrir d'estas ilhas dos Açores a ilha de Santa
Maria, ou porventura também esta de S. Miguel, o qual
aparelhando o navio com as cousas necessárias para a sua
viagem, partiu no dito ano da Vila de Sagres, e
navegando com próspero vento para o ocidente, depois de
passados alguns dias de navegação teve vista de uns
penedos que estão sobre o mar, e se veem da ilha de
Santa Maria, e de uns marulhos que fazem, outros que
estão ali perto, debaixo do mar, chamados agora todos
Formigas, nome imposto por ele, ou por serem pequenos
como formigas, em comparação das ilhas, ou porque ferve
ali o mar, como as formigas fervem na obra que fazem...»
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«...Vindo a estas Formigas, Frei Gonçalo Velho do novo
descobrimento...não achando ilha fructuosa e fresca,
senão estéreis e feios penedos, e, em logar de terras
altas e seguras, vendo sómente baixas pedras tão baixas
e perigosas, cuidando e suspeitando ele e os da sua
companhia que o Infante se enganara, julgando aquela
pobre penedia por uma rica ilha, não entendendo todos
eles com esta suspeita que havia mais que descobrir, se
tornaram desgostosos ao Algarve, d'onde partiram sem
mais ver outra cousa que terra parecesse...»
«Como na alta mente do Infante estava posta e entendida
outra cousa que os seus não entendiam nem cuidavam,
recebendo-os ele com alegre rosto e fazendo as mercês
costumadas a semelhantes serviços, confirmou mais o que
cuidava de estar ali perto d'aquele baixo de penedia a
ilha que ele mandava buscar, e sabendo mui bem quem
porfia mata caça, e a lebre que uma vez se esconde outro
dia se descobre, determinou provar outra vez a ventura e
aventurar o pouco que gastava com o muito de d'isso
esperava cobrar, e como foi tempo disposto para o
descobrimento, no ano seguinte tornou com rogos e
promessas a mandar o mesmo Frei Gonçalo Velho a
descobrir o que d'antes não achára dando-lhe por
regimento que passasse ávante das Formigas. O qual
Gonçalo Velho, tornando a fazer esta viagem como lhe era
mandado, vindo com próspero tempo, querendo Deus já
fazer esta tão alta mercê ao Infante e a ele, houve
vista da ilha em dia da Assunção de Nossa Senhora,
quinze dias de Agosto do ano do Senhor, uns dizem de
1430, outros de 1432...» |
A
informação de que Gonçalo Velho tinham partido das Formigas para o
Algarve, «sem mais ver outra cousa que terra parecesse» é
inverosímil e corrobora a ideia de ter sido a tradição oral que
serviu de base à narrativa de Gaspar Frutuoso. Chegando à vista das
Formigas, que pouco se elevam sobre o mar, o horizonte devia estar
claro senão não as veria. E mesmo com tempo pouco claro, a costa
alta de Santa Maria é bem visível a partir das Formigas. Parece mais
credível a possibilidade de ter Gonçalo Velho visto a ilha de Santa
Maria quando viu as Formigas, e apressar-se a voltar ao Algarve para
dar a boa notícia ao Infante de que se verificava o que ele já
conhecia por antigos mapas; verificação essa que era afinal o
objectivo da viagem.
Veja-se ainda a descrição que Gaspar Frutuoso faz das Formigas.
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«O que d'estes baixos aparece sobre a água do mar, tem
no princípio um grande e alto penedo, e na outra ponta
outro mais baixo e pequeno, e do alto até o mais baixo
corre a compridão d'elas como do nordeste ao sudoeste, e
a ponta mais delgada d'elas que é o penedo mais baixo,
vae direita à ilha de Santa Maria, esvasando pela banda
do Norte da mesma ilha. Tem estas Formigas, do penedo
grande à outra ponta no outro penedo mais pequeno tanto
como um bom tiro de bésta. O penedo maior, que é a
cabeça deste baixo, é de altura de uma casa sobradada; e
d'este penedo para a outra ponta que é outro penedo um
pouco mais, corre em altura de casa terrea. Assim que
são três alturas diferentes, porquanto tem os meios mais
baixos; e há um canal entre o penedo grande e outro
baixo, mais baixo, que passam barcos de banda a banda; e
aqui n'este canal morre muito peixe de muitas
maneiras...e da banda de leste se abrigam uns barcos a
este penedo grande de todo o temporal que corre
contrário do rosto ao leste. A largura d'este baixo será
tanto como vinte covados, de três palmos cada covado, a
logares mais ae a logares menos; e da banda do sul está
outro baixo arredado que é o penedo mais pequeno da
outra ponta, por entre o qual e o baixo do meio pode
passar um barco. E estes penedos dos cabos, assim o
grande como o pequeno, chamam os mareantes Cuadas,
porque são os extremos e pontas de todo este baixo que
está sobre o mar; e quando o vento é de nordeste, n'esta
Cuada ou penedo pequeno se abrigam dois até três bercos,
porque não cabem mais.....Da banda do sudoeste está uma
calheta pequena, metida no penedo, em a qual com vento
contrário que é leste lésnordeste, se abrigam dois
barcos.»
«N'estes baixos há muitos carangueijos, lapas, cracas e
búzios, em tanta quantidade que é cousa de espanto ver a
multidão d'este marisco. Estando aqui pescando uns
pescadores da cidade de Ponta Delgada d'esta ilha de S.
Miguel, ceiavam todas as noites em terra, ou para melhor
dizer, em pedra, sobre o baixo, e naquela calheta vinha
ter um lobo marinho, da feição e grandura de um grande
bezerro...E já se aconteceu irem pescadores pescar a
estas Formigas e deixando lenha e uma cruz em cima do
penedo, quando tornaram lá, o outro ano seguinte,
acharam a cruz e a lenha, sem a tormenta a levar. Da
Cuada, ou cabo d'este grande e mais alto penedo, do
direito, ao sueste, espaço de uma légoa, demóra outro
baixo, debaixo do mar...Este baixo que chamam o Razo, é
muito mais perigoso do que o outro alto de que mais se
temem os mareantes e onde os navios se perdem....» |
Apesar de algumas incorrecções, nomeadamente na orientação
geral dos ilhéus, é uma excelente descrição do lugar e
revela uma preocupação científica na inventariação das
várias realidades, com apreciável detalhe.
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