As Formigas


As Formigas são a «décima ilha» dos Açores, 99.9% submersa. A sua condição de ilhéus, alguns deles simples rochedos,  faz com que seja um dos locais menos conhecidos do arquipélago açoreano. E no entanto, a peculiaridade e riqueza da vida marinha que as caracteriza justificam amplamente um olhar mais atento.


 

LOCALIZAÇÃO E CARACTERÍSTICAS:

Os ilhéus das Formigas são um conjunto de rochas situado a cerca de 20 milhas (37km) a NE da ilha de Santa Maria e a 34 milhas (60km) a SE da ponta SE da ilha de S. Miguel, na entrada oriental do canal que separa as referidas ilhas.
Estes ilhéus constituem, juntamente com os baixios adjacentes, o Banco das Formigas, com cerca de 7 milhas de extensão e 3 milhas de largura. Este banco é constituído por um maciço submarino ao qual também pertence o Banco do Dollabarat, e fica compreendido entre os paralelos 37º14' N e 37º17' N e os meridianos 24º43' W e 24º47' W.


Os ilhéus das Formigas situam-se na parte NW desse maciço. As rochas negras que os formam aparecem dispostas no sentido N-S, com um comprimento total de cerca de 165m e com 80m de largura. Apresentam-se como uma massa mais ou menos compacta de rochas a Sul, e várias rochas separadas umas das outras, a Norte, sendo a mais elevada o Formigão, com 11m e aspecto arredondado. A cerca de 600m para sul do Formigão ergue-se o farol das Formigas (670/D-2638), constituído por uma torre troncocónica com 19m de altura. Os ilhéus não garantem qualquer abrigo para fundear; contudo, com bom tempo, pode-se desembarcar neles. A oeste do farol existe uma enseada com um pequeno ancoradouro, existindo um outro a leste. Ambos têm rampas construídas em cimento que os ligam ao farol.

Os recifes Dollabarat, a cerca de 3,8 milhas das Formigas, consistem num conjunto de rochas cujos picos se aproximam da superfície do mar, nalguns pontos com cerca de 3,3m de sonda, visíveis na baixa-mar. Com mar agitado reconhecem-se bem pela rebentação das ondas, ao contrário do que sucede com mar chão em que se tornam mais perigosos para a navegação. Entre os dois bancos, a cerca de 0,3 milhas das Formigas, há uma outra zona de rochas, também visíveis na baixa-mar, que atinge aproximadamente os 8m de sonda.

Geologicamente, as Formigas são formadas por escoadas lávicas basálticas submarinas (pillow-lavas) de morfologia irregular com cerca de 4 milhões de anos, e por sedimentos de calcáreo, por vezes com conchas fossilizadas, possivelmente com idade de 4-6 milhões de anos e aparentemente semelhantes às da ilha de Santa Maria, bem como formações calcárias de origem mais recente.

 

RESERVA NATURAL E AMEAÇAS
 

A 'Reserva Natural dos Ilhéus das Formigas' é relativamente recente, tendo sido criada pelo Dec. Leg. Reg. nº11/88A, compreendendo uma zona terrestre e outra marítima incluindo a coluna de água e os fundos subjacentes, bem como os respectivos recursos, sem que, contudo,  fosse então elaborado o respectivo Regulamento. No artº 3 daquele Decreto, foram proibidas actividades como a pesca com aparelhos de linhas e anzóis e outras artes que colidam com o fundo, bem como o uso de redes de emalhar, caça submarina, pesca desportiva e a apanha de moluscos e crustáceos. Foi também proibida a colheita e exploração de material geológico ou arqueológico sem autorização competente, e ainda o abandono de detritos e qualquer lixo. O Dec. Leg. Reg. nº8/90A definiu os respectivos limites da Reserva em duas circunferências de 5 milhas de raio centradas no farol das Formigas e no ponto mais elevado do Recife do Dollabarat, tendo sido interdita a actividade piscatória de qualquer espécie dentro duma área de 37,895 Ha.

 Adicionalmente, a Reserva Natural das Formigas foi designada como Sítio de Interesse Comunitário (PTSMA0023) no âmbito da Directiva Habitats/Rede Natura 2000, por decisão da Comissão Europeia em 28/12/01 no seguimento de uma lista de 11 Sítios apresentada por Portugal em 1997 que incluía aqueles ilhéus.

Porém a Reserva cedo se revelou permeável a abusos: as lapas ficando praticamente extintas por excesso de apanha;  navios de recreio praticando o designado 'big game fishing' dada a riqueza da fauna e peso dos peixes capturados; pesca clandestina de espécies como o mero e o uso de palangre (técnica de pesca não selectiva) e armadilhas; numerosos detritos assinalando excessiva presença humana nos ilhéus. Os próprios pescadores de S.Miguel reivindicaram, em 2002, um regime de excepção para a pesca do atum junto aos ilhéus, justificando essa pretensão com o facto de aquela ser uma espécie migratória cuja pesca pelo sistema tradicional de salto-e-vara supostamente não interfere com o meio ambiente. E junto do Secretário Regional da Agricultura e Pescas, reforçaram a sua argumentação admitindo a ilegalidade de terem 'nos últimos dias pescado cerca de 70 toneladas de atum na área da reserva'(!), quantidade muito superior àquelas que conseguem capturar em qualquer outra zona do mar de São Miguel e de Santa Maria.

Acto contínuo, o referido Secretário admitiu a possibilidade do Governo propor à Assembleia Legislativa Regional uma alteração ao decreto aprovado 1988 com vista à classificação das Formigas como reserva natural, por forma a permitir a actividade piscatória na zona, mas apenas restrita aos tunídeos. O que aconteceu logo no ano seguinte, em 2003. Nessa mesma ocasião a reserva foi reclassificada, passando a designar-se por 'Reserva Natural Regional dos Ilhéus das Formigas'.

Com a liberalização das pescas e o acesso da frota espanhola à ZEE açoreana, a pressão dos pescadores portugueses sobre as áreas ainda protegidas tende a aumentar. Veremos até onde o Governo Regional pactuará:  se aprovará novos regimes de excepção e se implementará uma vigilância eficaz sobre a área da Reserva.











 

A BIOLOGIA

A justificação para a constituição da reserva em 1988 assentava no facto de os ilhéus constituírem um recurso natural de grande importância, fundamentalmente por funcionarem como local de reprodução e viveiro para muitas espécies marinhas, e também por ser local de poiso e nidificação de aves marinhas.  De facto, a pequenez das Formigas faz com que a fauna e flora terrestres próprias estejam completamente ausentes, em contraste com a grande abundância de algas, de vastas colónias de coral negro e de peixes pelágicos que aí se alimentam, abrigam e reproduzem. É uma área também importante para golfinhos e tartarugas.

A FLORA NO DOLLABARAT
Durante as missões do Projecto Maré em 1998 e 1999, a coroa do Recife do Dollabarat apresentava-se luxuriantemente revestida por um denso povoamento de Cystoseira usneoides, que cobria a maior parte do fundo. As suas frondes chegavam a atingir mais de 1m de comprimento e suportavam múltiplas espécies que usam as algas para se alimentar, abrigar, ou reproduzir. Embora em pleno ambiente oceânico, o Banco parecia constituir uma zona de excelência para espécies tipicamente associadas a zonas costeiras abrigadas, como as rainhas (Thalassoma pavo) e os bodiões-verdes (Centrolabrus trutta). Estes últimos, beneficiando da abundância de algas que utilizam na construção do seu ninho, surgiam no Dollabarat com a população nidificante mais elevada do Arquipélago. Porém, durante a missão efectuada em 2002, os tapetes de Cystoseira característicos do Dollabarat apresentaram-se bastante reduzidos em extensão e biomassa, com reflexos bastante nítidos ao nível dos povoamentos de peixes.
A razão para este declínio ainda não está clara. No entanto, a monitorização futura destes povoamentos é essencial para esclarecer a dinâmica ecológica a que este banco submarino está submetido e avaliar o estado de conservação do Sítio de Interesse Comunitário aí estabelecido.

A FLORA NAS FORMIGAS
A flora dominante é constituída por Coralina officinalis, de cor rosa ou lilás, cujo habitat é na zona de marés ou imediatamente abaixo desta, agarrada às rochas.
Em profundidade encontram-se as laminárias. São algas de grande beleza que albergam uma elevada quantidade de organismos marinhos; os seus talos servem de protecção a juvenis e a posturas, e nas estruturas de fixação é frequente encontrar diversos invertebrados importantes para a sustentabilidade do ecossistema. Ao contrário do que acontece nas costas de Portugal continental, praticamente não existem laminárias nos Açores, excepto nas Formigas, único local onde até agora se registou a ocorrência destas algas. De facto, a equipa dos habitats marinhos registou a presença da Laminaria ochroleuca que aparece a uma profundidade entre os 45 e os 60 m. Esta espécie, em conjunto com os extensos tapetes de outras algas que cobrem as zonas menos profundas, constituem povoamentos anormalmente densos no contexto açoriano, e parecem ser indicadores de que o Banco das Formigas apresenta uma produtividade especialmente elevada. Na base desta produtividade deverá estar o afloramento de nutrientes provenientes de águas profundas que são trazidas à superfície devido à topografia submarina deste banco.

A FAUNA
A fauna é muito variada, mas no Dollabarat é constituída principalmente por Patruças (
Kyphosus sectator), Peixes-porco (Balistes carolinensis), Jamantas, Lírios( Seriola dumerili) e Tubarões(Carcharhinus galapagensis). Nas Formigas, é possível observar Peixes-porco e Írios-de-serra (Caranx crysos) e, à noite, surgem Peixes-pau (Capros aper) e Trombeteiros (Macroramphosus scolopax). De assinalar ainda a presença de variados moluscos, na sua generalidade ainda mal estudados.


Coral negro

 


Cystoseira usneoides





Corallina officinalis




Laminaria ochroleuca

 

AS EXPEDIÇÕES CIENTÍFICAS

A MISSÃO BANCOS 2004
As Missões BANCOS fazem parte do calendário anual do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, e têm como objectivo a monitorização biológica dos bancos açoreanos. Foram desenhadas em 2001 e iniciadas em 2002 para complementar alguns Projectos de Investigação Científica e monitorizar as águas pouco profundas ao largo das Ilhas dos Açores. Os estudos envolvem a recolha de dados batimétricos e da variação submarina anual da temperatura das águas através dos sensores de temperatura instalados nos Bancos. Os projectos relacionados com a eco-toxicologia também aproveitam estas Missões para recolher organismos nos locais, presumivelmente, mais livres de elementos poluentes. Outro dos Projectos de Investigação Científica a beneficiar com estas Missões é o projecto MAREFISH. Este projecto envolve diversos planos de estudo para avaliar os eventuais benefícios que as áreas protegidas têm no ambiente marinho. Durante as missões "Bancos" são realizadas marcações de peixes, standard e telemétricas, e censos visuais através do rastreio e contagem das principais espécies presentes durante o mergulho com escafandro e sessões de apneia. No entanto os principais objectivos das missões são o mapeamento continuado dos habitats e da biodiversidade marinha tendo em vista a planificação e melhoramento dos planos de gestão de Sítios de Interesse para a Conservação marinha (SICs da Rede Natura 2000).
A mais recente foi a Missão BANCOS 2004, em Agosto, em que o N/I "Arquipélago" visitou o Banco Princesa Alice, o Banco das Formigas e Recife Dollabarat, e o Banco D. João de Castro e, além da equipa técnica da Universidade dos Açores, contou com a presença de cientistas da Universidade do Hawai e do National Institute of Oceanography de Goa.
Nesta missão foram obtidas imagens inéditas das laminárias, só possíveis de captar graças ao pequeno ROV (veículo subaquático controlado remotamente) cedido para o efeito pela Universidade de St. Andrews (Escócia), visto que as laminárias se encontram concentradas a profundidades para além dos limites de segurança do mergulho com escafandro autónomo de ar comprimido. As mais de 3 horas de vídeo obtidas mostram autênticas florestas submarinas com densidades de alguns indivíduos por metro quadrado. A altura dos estipes não parece superar 1m, mas as lâminas chegam a prolongar-se aproximadamente pelo dobro. Os fundos investigados situam-se a cerca de 55m de profundidade e são compostos de leito rochoso irregular com algumas bolsas de areia biogénica acumulada em algumas depressões. As algas recobrem todas as superfícies rochosas de baixo e médio pendor. A filmagem destes povoamentos constituía um dos objectivos fundamentais da missão BANCOS 2004 e permitirá uma descrição mais minuciosa desta alga, reconhecida como uma componente invulgar da biodiversidade açoriana e, provavelmente, única na Macaronésia. Além das laminárias, foram também observados os corais negros e extensos povoamentos da alga Macaronésica Codium elisabethae, a mais de 40 metros de profundidade.

3Codium elisabethae4

O PROJECTO BIOMARE
É um projecto da UE de investigação sobre a biodiversidade marinha, iniciado em 2000 que radica na Convenção do Rio de Janeiro para a Biodiversidade, de 1992. Entre as obrigações resultantes daquela convenção os estados Europeus e a União Europeia estão vinculados a estudar, monitorizar e proteger a sua própria biodiversidade. No ambiente marinho, grande parte da biodiversidade continua por descrever e as mudanças devidas às actividades humanas e mudanças globais são pouco conhecidas, visto que as diferenças se reflectem apenas quando analisadas grandes áreas e por longos períodos de tempo. O grande projecto BIOMARE começou por criar uma rede de Sítios Marinhos de Referência para o estudo da biodiversidade a grande escala e longo prazo, através de metodologias comuns, para a monitorização e estudo da biodiversidade. As Formigas, juntamente com o Corvo, foram os primeiros locais de Portugal a integrar a lista inicial de Sítios Marinhos de Referência. Desde 2001 que o DOP (Departamento de Oceanografia e Pescas) da Universidade dos Açores faz a monitorização daqueles locais e integra as suas leituras na base da BIOMARE.

EXPEDIÇÕES CIENTÍFICAS A SANTA MARIA E FORMIGAS
O Departamento de Biologia da Universidade dos Açores realizou duas expedições, a Santa Maria e às Formigas, em 1990 e em 1991, constituídas por equipas pluridisciplinares onde além dos biólogos e biólogos marinhos, se contou com a participação do Departamento de Geociências, de especialistas em Malacologia Terrestre, Entomologia, Ornitologia, Flora e Vegetação, Mamalogia e naturalistas. Além da equipa açoriana, integraram as expedições elementos da Universidade do Algarve, da Faculdade de Ciências de Lisboa, e especialistas dos EUA, Canadá, Bélgica, Inglaterra, França e África do Sul.

BIAÇORES
Expedição francesa realizada em Setembro e Outubro de 1971. O seu objectivo era reunir o maior número de amostras da biologia marinha dos Açores, e medições diversas. Nesse âmbito estudaram as Formigas, efectuando dragagens, arrastos, mergulhos, pescas pelágicas, medições térmicas e batimétricas, e criação de larvas de crustáceos. Foi a primeira expedição a registar a existência de laminárias nas Formigas.

AS CAMPANHAS DO PRÍNCIPE ALBERTO I DO MÓNACO
Este príncipe/cientista explorou os Açores com os seus iates, nos fins do séc. XIX e princípios do século XX, reunindo um grande espólio de amostras e de medições, hoje preciosas em termos comparativos, antecedendo em poucos anos D. Carlos I, também ele apaixonado pelas coisas do mar e oceanógrafo a bordo dos seus iates 'Amélia'. Que se saiba, D. Carlos não visitou as Formigas, mas Alberto do Mónaco sim.

 

5As Formigas, ainda sem farol, vistas do navio, e inversamente 5. Fotos de 2/7/1895

À direita: O último rei de Portugal, D. Manuel II, no iate 'Princess Alice' do Príncipe do Mónaco, em 17/8/1909, catorze meses antes da implantação
da República. À sua esquerda o Dr. Girard, conservador da colecção de animais marinhos de D. Carlos I.

Em evocação deste navio, um dos Bancos dos Açores, a sul do Pico, chama-se precisamente 'Princesa Alice'.

 

 

A EXPEDIÇÃO DE GONÇALO VELHO, ou como o descobrimento dos Açores começou nas Formigas
Nenhum dos historiadores do séc XV, contemporâneos do Infante D. Henrique, se refere ao descobrimento dos Açores, facto certamente digno de ser mencionado caso tivesse ocorrido.
Um deles, Gomes Eanes de Azurara, tratando das ilhas de Santa Maria e de S. Miguel em relação às da Madeira e do Porto Santo, diz simplesmente:

«...mandou o Infante um cavaleiro, que se chama Gonçalo Velho, comendador na ordem de Xpõ, que fosse povorar outras duas ilhas que estam afastadas daquelas CLXX legoas ao noroeste...»

Eis a única referência importante na qual um dos citados historiadores alude àquelas ilhas dos Açores e ao navegador Frei Gonçalo Velho.
É o historiador açoreano Gaspar Frutuoso [1522-1591] que pela primeira vez indica ter sido Gonçalo Velho o descobridor dos Açores, afirmação que faz, mais de cem anos depois dos factos por ele narrados. Mas não indica qual a fonte em que se baseia, o que autoriza a pensar que pode ter-se socorrido da tradição oral.
Analisando o seu texto, fica a impressão que foram mais viagens de 'reconhecimento' e não de 'descobrimento' as viagens que Gonçalo Velho fez às Formigas e a Santa Maria, por ordem do Infante.
Nas 'Saudades da Terra' lê-se:

«...no ano do Senhor de 1431...tendo o dito Infante em sua casa um nobre fidalgo e esforçado cavaleiro chamado Frei Gonçalo Velho...de quem por sua virtude, grande esforço e prudência tinha muita confiança, o mandou descobrir d'estas ilhas dos Açores a ilha de Santa Maria, ou porventura também esta de S. Miguel, o qual aparelhando o navio com as cousas necessárias para a sua viagem, partiu no dito ano da Vila de Sagres, e navegando com próspero vento para o ocidente, depois de passados alguns dias de navegação teve vista de uns penedos que estão sobre o mar, e se veem da ilha de Santa Maria, e de uns marulhos que fazem, outros que estão ali perto, debaixo do mar, chamados agora todos Formigas, nome imposto por ele, ou por serem pequenos como formigas, em comparação das ilhas, ou porque ferve ali o mar, como as formigas fervem na obra que fazem...»

«...Vindo a estas Formigas, Frei Gonçalo Velho do novo descobrimento...não achando ilha fructuosa e fresca, senão estéreis e feios penedos, e, em logar de terras altas e seguras, vendo sómente baixas pedras tão baixas e perigosas, cuidando e suspeitando ele e os da sua companhia que o Infante se enganara, julgando aquela pobre penedia por uma rica ilha, não entendendo todos eles com esta suspeita que havia mais que descobrir, se tornaram desgostosos ao Algarve, d'onde partiram sem mais ver outra cousa que terra parecesse...»

«Como na alta mente do Infante estava posta e entendida outra cousa que os seus não entendiam nem cuidavam, recebendo-os ele com alegre rosto e fazendo as mercês costumadas a semelhantes serviços, confirmou mais o que cuidava de estar ali perto d'aquele baixo de penedia a ilha que ele mandava buscar, e sabendo mui bem quem porfia mata caça, e a lebre que uma vez se esconde outro dia se descobre, determinou provar outra vez a ventura e aventurar o pouco que gastava com o muito de d'isso esperava cobrar, e como foi tempo disposto para o descobrimento, no ano seguinte tornou com rogos e promessas a mandar o mesmo Frei Gonçalo Velho a descobrir o que d'antes não achára dando-lhe por regimento que passasse ávante das Formigas. O qual Gonçalo Velho, tornando a fazer esta viagem como lhe era mandado, vindo com próspero tempo, querendo Deus já fazer esta tão alta mercê ao Infante e a ele, houve vista da ilha em dia da Assunção de Nossa Senhora, quinze dias de Agosto do ano do Senhor, uns dizem de 1430, outros de 1432...»

A informação de que Gonçalo Velho tinham partido das Formigas para o Algarve, «sem mais ver outra cousa que terra parecesse» é inverosímil e corrobora a ideia de ter sido a tradição oral que serviu de base à narrativa de Gaspar Frutuoso. Chegando à vista das Formigas, que pouco se elevam sobre o mar, o horizonte devia estar claro senão não as veria. E mesmo com tempo pouco claro, a costa alta de Santa Maria é bem visível a partir das Formigas. Parece mais credível a possibilidade de ter Gonçalo Velho visto a ilha de Santa Maria quando viu as Formigas, e apressar-se a voltar ao Algarve para dar a boa notícia ao Infante de que se verificava o que ele já conhecia por antigos mapas; verificação essa que era afinal o objectivo da viagem.

Veja-se ainda a descrição que Gaspar Frutuoso faz das Formigas.

«O que d'estes baixos aparece sobre a água do mar, tem no princípio um grande e alto penedo, e na outra ponta outro mais baixo e pequeno, e do alto até o mais baixo corre a compridão d'elas como do nordeste ao sudoeste, e a ponta mais delgada d'elas que é o penedo mais baixo, vae direita à ilha de Santa Maria, esvasando pela banda do Norte da mesma ilha. Tem estas Formigas, do penedo grande à outra ponta no outro penedo mais pequeno tanto como um bom tiro de bésta. O penedo maior, que é a cabeça deste baixo, é de altura de uma casa sobradada; e d'este penedo para a outra ponta que é outro penedo um pouco mais, corre em altura de casa terrea. Assim que são três alturas diferentes, porquanto tem os meios mais baixos; e há um canal entre o penedo grande e outro baixo, mais baixo, que passam barcos de banda a banda; e aqui n'este canal morre muito peixe de muitas maneiras...e da banda de leste se abrigam uns barcos a este penedo grande de todo o temporal que corre contrário do rosto ao leste. A largura d'este baixo será tanto como vinte covados, de três palmos cada covado, a logares mais ae a logares menos; e da banda do sul está outro baixo arredado que é o penedo mais pequeno da outra ponta, por entre o qual e o baixo do meio pode passar um barco. E estes penedos dos cabos, assim o grande como o pequeno, chamam os mareantes Cuadas, porque são os extremos e pontas de todo este baixo que está sobre o mar; e quando o vento é de nordeste, n'esta Cuada ou penedo pequeno se abrigam dois até três bercos, porque não cabem mais.....Da banda do sudoeste está uma calheta pequena, metida no penedo, em a qual com vento contrário que é leste lésnordeste, se abrigam dois barcos.»

«N'estes baixos há muitos carangueijos, lapas, cracas e búzios, em tanta quantidade que é cousa de espanto ver a multidão d'este marisco. Estando aqui pescando uns pescadores da cidade de Ponta Delgada d'esta ilha de S. Miguel, ceiavam todas as noites em terra, ou para melhor dizer, em pedra, sobre o baixo, e naquela calheta vinha ter um lobo marinho, da feição e grandura de um grande bezerro...E já se aconteceu irem pescadores pescar a estas Formigas e deixando lenha e uma cruz em cima do penedo, quando tornaram lá, o outro ano seguinte, acharam a cruz e a lenha, sem a tormenta a levar. Da Cuada, ou cabo d'este grande e mais alto penedo, do direito, ao sueste, espaço de uma légoa, demóra outro baixo, debaixo do mar...Este baixo que chamam o Razo, é muito mais perigoso do que o outro alto de que mais se temem os mareantes e onde os navios se perdem....»

Apesar de algumas incorrecções, nomeadamente na orientação geral dos ilhéus, é uma excelente descrição do lugar e revela uma preocupação científica na inventariação das várias realidades, com apreciável detalhe.
 


As Formigas no Brasil
No Estado de Minas Gerais, há uma pequena cidade chamada Formiga. Durante muito tempo era voz corrente que naquele lugar, antigamente, um carregamento de açúcar tinha sido atacado por formigas, daí resultando o nome da cidade. Outra corrente argumentava que o nome Formiga tinha origem nos índios tapuias. Mas os formiguenses, por definição precavidos e trabalhadores, meteram mãos à obra e puseram-se a investigar de forma séria, e recentemente desfizeram os mitos. Todo o oeste de Minas Gerais foi desbravado e povoado por açoreanos,
que ali deixaram a marca da sua passagem e o testemunho da sua presença desde as primeiras décadas do séc. XVIII. Ao chegarem ao local onde se situa hoje a Cidade de Formiga, encontraram também uns penedos no meio rio, muito semelhantes àqueles do arquipélago de origem. E assim deram àquele lugar o nome de Ria das Formigas, denominação que depois passou a ser Vila das Formigas. Com  a emancipação administrativa, com foros de cidade e município em 6 de Junho de 1858, o nome passou a ser Cidade de Formiga, e depois apenas Formiga.

 

As Formigas de Boris Vian
Tirando o nome, a relação entre o livro do Boris Vian e os ilhéus açoreanos é nula, dado que o livro trata do desembarque das tropas aliadas na Normandia. No entanto há coisas inesperadas e surpreendentes, que só o génio daquele autor poderia conseguir, e que permitem uma visão alternativa daqueles minúsculos e isolados rochedos. Veja-se o diálogo seguinte:
- E põem pedras nos túmulos? - perguntou Fidèle.
- Às toneladas - garantiu o Major.
- Esculpidas? - perguntou Fidèle.
- Completamente - disse o Major.
- E como?
- Em forma de pedras! - concluiu o Major...

 


 

 


 

ÚLTIMA HORA - Bombordo filma as Formigas
Em Agosto, encontrava-se no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores uma equipa responsável pela produção de alguns dos programas a transmitir na futura série do programa televisivo “Bombordo” da RTP. O seu objectivo era a gravação de três episódios baseados em projectos científicos em curso no DOP. O 1º episódio, intitulado “Ilhéus das Formigas e Recife Dollabarat”, foi gravado durante a missão “Bancos 2004” por uma equipa que acompanhou a expedição desde a ilha do Faial até Santa Maria.


Outubro 2004

C O M E N T A