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| WRITERS | BOMBERS | OS OUTROS TODOS |
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Arte ou vandalismo? Essa é a pergunta fatídica, enjoativa de tão banalizada. Nem é bem uma pergunta. É antes uma proposta sorrateira de redução a apenas duas alternativas extremas, aparentemente excludentes. Condicionadas por tal formulação, é normal que as opiniões se dividam entre aqueles que enfatizam e enaltecem a dimensão artística dos graffitis, e aqueles que os rejeitam sumariamente, enjoados, como se de equivalente a dejectos caninos se tratasse. Mas eu, inconformado com um leque de opções tão limitado, resolvi averiguar se haveria leituras mais matizadas, o que me obrigou a pesquisar.
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Impunha-se que à partida me desfizesse de preconceitos. Recordei então as gravuras rupestres e os vários graffitis que existem em Pompeia, Óstia e em Roma, para retirar que perante um impulso tão antigo da humanidade, uma inegável forma de comunicação, precisaria de olhar para eles com maior respeito, como se o fizesse pela primeira vez, despojando-me de ideias apriorísticas antes de partir por Lisboa fora em viagens exploratórias. Verifico agora que foi uma viagem sem retorno porque, desde então, tornou-se-me impossível abstrair-me dos graffitis ou tentar ignorá-los como acontecia antes, com tudo o que isso representa de positivo e de negativo. Como resultado fiquei também com uma opinião mais formada, pouco lisonjeira para a imensa maioria do que vi, embora me tenham pontualmente fascinado algumas (raras) pérolas de talento.
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Comecei a viagem tentando estabelecer uma coerência, uma sistematização daquilo que ia encontrando, mas estive tentado a desistir, dado o enorme número de categorias possíveis: os graffitis políticos, os partidários, os futebólicos, os reivindicativos, os amorosos, os anarquistas, os religiosos, os filosóficos, os difamadores, os pré-fabricados, os tóxicos, os infantis, os ordinários, os estéticos, os gratuitos, os grupais, os narcísicos, os de intervenção, etc.
Optei então por uma divisão simples, mas flexível, colocando de um lado os que encaixam mais ou menos na denominada subcultura Graffiti, e do outro lado todos os demais.
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Quanto a writers, aquilo que encontrei na generalidade de Lisboa foi de uma pobreza confrangedora, mas identifiquei meia-dúzia de lugares onde existem concentrações de trabalhos de grande mérito, ao nível conceptual e de perícia, alguns deles absolutamente lindíssimos. Writers verdadeiros parecem ser poucos; a maioria parece ser constituída por principiantes. Verifiquei ainda que é comum a todos a preocupação com o local dos trabalhos para efeito de visibilidade, mas constatei também, com alguma surpresa, que os writers mais talentosos são os mais respeitadores e com maior atenção ao enquadramento dos seus trabalhos no tecido urbano. São infelizmente a excepção; a maioria sem talento é mais arrogante e acha-se com mais direitos sobre a estética da cidade, não se coibindo de deixar rascunhos onde calhar. Uma explicação...generosa para a raridade da excelência é a das razões económicas: um trabalho de alta qualidade, com efeitos 3D, implica uma grande variedade de sprays de várias cores, que não são baratos. Por outro lado (apesar do preço dos sprays) bombers há muitos, porventura em demasia, e são extremamente abusadores. Parecem ser muito territoriais e básicos; qualquer superfície serve para deixar as marcas da sua passagem, corroborando a segunda das percepções extremas que mencionei no início. Aparentam ser cegos ou insensíveis a outras estéticas, que não respeitam. |
| Quanto aos outros, os que considerei fora da subcultura graffiti, é difícil generalizar, mas na sua maioria também não parecem ter escrúpulos quanto aos locais. Sendo geralmente apenas mensagens escritas, não podem ser avaliadas por nenhum valor estético intrínseco. Nestes casos o que pode contar como critério de valoração é o espírito das palavras nas mensagens; a inteligência, o simbolismo, a acuidade, a pertinência, a beleza, a piada, etc. Nesta categoria, por essa Lisboa, há preciosidades absolutamente ímpares, a cintilar discretamente no meio de uma imensidão de banalidades medíocres. |
| O
que se segue é uma espécie de álbum de viagem, nunca acabado e
sempre actualizável, porque a Lisboa dos graffitis é infinita. A minha impressão, provisória, é que impera a mediocridade. Quanto às excepções, os trabalhos bons, os óptimos e os fantásticos, tendem a concentrar-se em meia-dúzia de locais da cidade, com características comuns como a boa visibilidade, razoável extensão e ausência de colisão com outras estéticas.
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Abril 2004