MACARONÉSIA

A Macaronésia é uma região que abarca os Açores, a Madeira, as Selvagens, as Canárias, Cabo Verde e ainda um pequeno enclave da costa marroquina defronte das Canárias.

O seu nome deriva do grego  μακάρων νήσοι  ou Makaron Nesoi, que significa Ilhas Afortunadas. De ampla tradição nos autores gregos, as Ilhas Afortunadas inseriam-se na categoria dos não-lugares utópicos, paradisíacos e miraculosos, frequentemente referidos como local de repouso dos deuses ou dos heróis míticos. De Homero a Plutarco, passando pelo caso notável da Atlântida de Platão, essa tradição transferiu-se também aos autores latinos como Virgílio,  Horácio, Ovídio e Estrabão, entre outros.


Já no cristianismo, existiu uma  preocupação em identificar  lugares utópicos, em especial o Jardim do Éden. Mas seria apenas na Época Medieval e nos alvores do Renascimento que a geografia utópica se iria revelar em todo o seu esplendor e diversidade, ao pretender cartografar o reino do Prestes João, o Santo Sepulcro, o Eldorado, a Fonte da Juventude, a Terra Australis, a ilha de S. Brandão, a ilha das Sete-Cidades, o Jardim das Hespérides, e tantos tantos outros. Até que chegamos ao caso igualmente notável da Utopia de Thomas More, e da ilha assumidamente quimérica,  fábula de um lugar ideal imaginário que assumia o papel de criticar a Inglaterra daquela época. Já para Marx e Engels a utopia designaria um modelo de sociedade harmoniosa a construir e para Nietzsche o advento dos super-homens; coisas que escapando ao domínio da geografia já não poderiam ser cartografadas. Em todo o caso, por toda esta gente perpassou evidenciar a divisão entre o mundo real, sempre penoso, e um mundo ideal, ora maravilhoso ora afirmativo, sempre libertário. Actualmente, os ideais agonizam numa desorientação niilista.

Contudo, há quem defenda que nem Cabo Verde nem o enclave marroquino fronteiro às Canárias pertencem à Macaronésia.

A Macaronésia é uma região biogeográfica, conjugando características geológicas com especificidades da fauna e principalmente da flora.
Assim, uma definição corrente é aquela que refere a existência simultânea de 3 características comuns. '1-São ilhas oceânicas, de origem vulcânica, que nunca estiveram unidas ao continente. 2-Estão sob a influência dos ventos alíseos de nordeste que sopram em direcção ao Equador. 3-E partilham os restos da flora subtropical que habitava a Europa durante o Terciário'. Assim, o enclave marroquino junto às Canárias, que se estende até aos contrafortes do Anti-Atlas e ao Vale do Draa, apesar de ali existir uma flora com alguma afinidade com a das Canárias, não sendo ilha não é considerado Macaronésia. Também Cabo Verde, sendo mais sujeito à Convergência Intertropical do que aos alíseos de NE, não cabe na definição da Macaronésia.

O ex-libris da vegetação da Macaronésia é a floresta Laurissilva. É uma formação entre os 300 e os 1300 metros de altitude onde dominam as árvores lauráceas, de onde se destacam, entre mais de 20, o Til, o Loureiro, o Vinhático, nos declives húmidos virados a norte, e a Barbujana, o Aderno e o Mocano nos declives mais secos, virados a sul. 

No interior da Laurissilva encontra-se ainda uma grande variedade de outras espécies; arbustos, plantas herbáceas, fetos,
musgos, hepáticas, líquenes, cogumelos, na sua maioria endémicas da Macaronésia. Nas suas melhores representações, a Laurissilva forma um coberto contínuo de quase 30 metros de altura. Além de permitir a formação e fixação dos solos, permite uma excelente captação e infiltração das águas, quer das chuvas quer da 'precipitação oculta' através da captação das gotículas dos frequentes nevoeiros.
Esta vegetação reduz-se a 15.000 ha na Madeira, que constitui a mancha mais importante do mundo, algumas centenas de hectares repartidos pelas ilhas dos Açores e mais de 18.000 ha repartidos pelas ilhas das Canárias, dos quais apenas6.000 ha correspondem a florestas maduras.  
Ameaças pairam sobre este paraíso, sendo de destacar a fragmentação das manchas de Laurissilva, o excesso de
 pastoreio, as espécies exóticas, o desenvolvimento urbanístico, o excesso de visitantes, a exploração excessiva dos recursos hídricos e os incêndios florestais. A Macaronésia foi a primeira região biogeográfica da UE a figurar na rede Natura 2000. Nesta rede, naturalmente são apenas considerados os territórios portugueses e espanhóis, o que leva a crer que a questão das balizas de delimitação da Macaronésia não são totalmente científicas e, muito menos, inocentes. A lista dos Sítios de Interesse Comunitário foi proposta durante 1996 e 1997. Os Açores propuseram 23 Sítios que correspondem a 19,6% do seu território, a Madeira propôs 11 Sítios que abrangem 31% e as Canárias 173 Sítios, correspondentes a 37% do seu território. A rede Natura 2000 resulta directamente da Directiva Habitats, de 1992, que tinha como objectivo contribuir para a biodiversidade dentro da União Europeia. No período de 2000 a 2006, as 3 regiões deverão designar os Sítios propostos como Zonas Especiais de Conservação, e tomar medidas para restaurar ou manter os habitats num estado de conservação saudável. Isto são obrigações dos Estados Membros, mas dado grau de autonomia de que gozam, são competência das administrações regionais. O período de 2000-2006 é aquele em que os fundos estruturais são mais abundantes, além de complementados com outras possibilidades de financiamento indirecto através do FEOGA, do IFOP, do FEDER, do FSE e outros. É portanto um cenário muito favorável, ao nível dos incentivos e dos financiamentos, pelo que se espera que sejam ampla e adequadamente utilizados a bem da preservação sustentada da flora da região macaronésica. Seria interessante comparar os resultados com os das outras regiões da rede Natura.

 

 
Plínio-o-Velho, historiador romano do séc. I,  identificou as Ilhas Afortunadas com as Canárias, identificação essa que se manteria daí em diante. Daí que quando, no séc. XIX, o geólogo e botânico inglês Phillip Baker Webb quis encontrar uma designação para a região biogeográfica dos vários  arquipélagos, evitando a conotação das Ilhas Afortunadas com as Canárias, recuperou a antiga designação grega e 'baptizou' aquele conjunto de Macaronésia.
"Terras da Fantasia! Ilhas Afortunadas,
Virgens, sob a meiguice e a limpidez do céu,
Como ninfas, à flor das águas remansadas!
- Pondo o rumo das naus contra a noite horrorosa
Quem sondara esse abismo e rompera esse véu,
Ó sonho de Platão, Atlântida formosa!

Mar tenebroso! aqui recebes, porventura,
A síncope da vida, a agonia da luz?.
Começa o Caos aqui, na orla da praia escura?
E a mortalha do mundo a bruma que te veste?
Mas não! por trás da bruma, erguendo ao sol a Cruz,
Vós sorrides ao sol, Terras Cristãs do Preste!

Olavo Bilac - Sagres

Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguem que nos falla,
Mas que, se escutarmos, cala,
Por ter havido escutar.

E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos,
Que ella nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.

São ilhas afortunadas,
São terras sem ter logar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos dispertando,
Cala a voz, e ha só o mar.

Fernando Pessoa - Mensagem
Terceira Parte - O Encoberto
Quarto - As Ilhas Afortunadas

Com o fim do Terciário (-65 milhões a -1,8 milhões de anos) começaram as grandes glaciações. A floresta circum-mediterrânica, de características subtropicais foi migrando em direcção ao sul, em busca de refúgios com clima mais suave, de onde pôde 'saltar' para as ilhas macaronésicas por acção das correntes marítimas e com o auxílio das aves, facilitada pelo abaixamento do nível do mar. O reaquecimento que se seguiu permitiu a expansão da vegetação em latitude, mas as condições do Terciário nunca foram totalmente repostas, além de que surgiram novas barreiras como o deserto do Sahara. Daí a floresta Terciária ter ficado reduzida à zona macaronésica, onde o clima temperado e a humidade adequada lhe permitiu sobreviver até aos nossos dias, quase como um fóssil vivo.
 
Alíseos
      O ar, na zona equatorial, devido ao aquecimento torna-se mais leve e sobe, enquanto o ar vindo das zonas polares, mais frio, vai ocupando o lugar daquele, soprando à superfície.
Por acção do movimento de rotação da Terra, os ventos de superfície que vinham de norte, no Hemisfério Norte, transformam-se em ventos de nordeste, enquanto no Hemisfério Sul, os ventos que vinham de sul transformam-se em ventos de sudeste.

 

Em meados dos anos 70, um carismático líder líbio, autor de um livro verde que nada tinha de botânico ou ecológico, fez furor junto das opiniões públicas que perderam o seu tempo a ouvi-lo, ao advogar a despropósito a emancipação política dos arquipélagos e a constituição da República da Macaronésia.

 
O nome Macário também tem a mesma raiz grega, vindo de Makarios, com o significado de afortunado. Não se sabe se 'macarrão' se chama assim por ser uma...feliz invenção. O que se sabe é que a Macaronésia não consta na Diciopédia. Talvez justamente por serem 'terras sem ter logar'; talvez por os macários-perfeitos serem uma utopia macarrónica.
 

 

O DRAGOEIRO

A flora macaronésica não consiste apenas na Laurissilva. Há numerosas outras espécies nativas e dentro destas destaco o curioso Dragoeiro (Dracaena drago). É uma das espécies mais raras de Portugal, já mal representada nos Açores e na Madeira.

No Porto Santo, apesar de figurar no respectivo brasão, já só restam alguns exemplares no Pico do Castelo e nos Morenos. O actualmente denominado Ilhéu de Cima, referido em mapas antigos com o nome de Ilhéu dos Dragoeiros, aparentemente já não conta com nenhum exemplar. O dragoeiro está bem representado em Cabo Verde, em Marrocos e nas Canárias, onde um exemplar dito milenário faz sensação em Tenerife.
As flores nascem em grandes cachos de cor esbranquiçada nos meses de Agosto e Setembro. Um corte no caule ou nos ramos deixa sair um líquido avermelhado denominado 'sangue-de-dragão'. Antigamente, este líquido era utilizado na produção de um verniz encarnado, em tintas para tingir tecidos e como tónico com fins medicinais. É possível encontrá-lo no continente, nalguns jardins mais antigos e já começa a ver-se como planta ornamental.

 

 


Três fotos publicitárias do Reid's Hotel, no Funchal, onde se vêm dragoeiros



Fotos pelo autor

Dragoeiro-1 no Jardim Botânico da Ajuda, Lisboa.

 

 

 

 


Dragoeiro-2 no Jardim Botânico da Ajuda, Lisboa.

 

 

 

 

Três Dragoeiros na Estação Elevatória dos Barbadinhos - Museu da Água, Lisboa.

 

 

 

 

 

Fileira de Dragoeiros num jardim. Santa Cruz da Graciosa, Açores.

 

 

 

 

Dragoeiro no Parque de Monserrate, Sintra. Ao lado, um exemplar já morto mantém-se ainda de pé.

 

 

 

 

 

 

Dragoeiro junto à saída do Aeroporto das Lajes, Terceira, Açores.

 

 

 

 

 

Dragoeiro no Parque das Nações, Lisboa.

 

 

 

 

 

 

 

 

Dragoeiro na Aldeia do Meco, Sesimbra.

 

 

 

 

 

Rebento de dragoeiro.

 

 

 

 

 

 

 


 

Novembro 2002

C O M E N T A