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As
Ilhas Selvagens são a parte mais meridional do território português, um
subarquipélago da Região Autónoma da Madeira, frequentemente esquecidas
por parte da maioria dos portugueses e desconhecidas por muitos. Arrumadas
na categoria de "coisa que está para ali", pequenas e remotas,
dir-se-ia terem um interesse proporcional ao seu tamanho. Nada mais
errado, defendo eu. Este artigo reflecte a minha própria surpresa. Parti à descoberta das Selvagens numa perspectiva determinada, mas a cada passo fui-me espantando, aqui e ali, com novos e variados motivos de interesse, que explorei o mais que pude e soube. Contudo, só aparentemente me dispersei em relação ao caminho traçado, tentando conciliá-lo com a expressão desse deslumbramento. Cabe ainda referir que o que vos trago não
é minimamente exaustivo. Muitos aspectos ficaram por tratar, outros
tantos por aprofundar. |
CONTENDA DE MOURA - 1
Naquele dia 2 de Agosto de 1996, o
pequeno cão não parava de ladrar. Os dois Vigilantes da Natureza perceberam
logo que se passava qualquer coisa de anormal e saíram da casa para ver o que
se passava.
-Devem ser os caças espanhóis outra vez - disse um, enquanto o ruído de fundo
se tornava cada vez mais perceptível.
-Não, não -disse o colega- isto é som de motor de helicóptero.
De facto, pouco depois, um Puma AS-330 da força aérea espanhola tentava
aterrar na Selvagem Grande, cometendo assim uma dupla infracção: não
só violava o espaço aéreo português, como também sobrevoava a menos de 200
metros uma Reserva Natural, o que é proibido.
Ainda lhes ocorreu poder tratar-se de uma emergência, mas pelo comportamento do
Puma, nas suas ousadas evoluções sobre o terreno, percebia-se não ser esse o
caso. Gesticularam um protesto, mas o aparelho espanhol, ignorando-os, foi
tentar aterrar no planalto Norte.
Olharam ambos para os mastros sobre a casa, confirmando que as bandeiras, a de
Portugal e a da Região Autónoma se mantinham hasteadas. Depois um deles
dirigiu-se à furna onde está o rádio, para contactar a capitania do Funchal.
O outro subiu o carreiro até ao planalto, e seguindo com os binóculos o voo do
helicóptero, tomou o caminho da cisterna velha. O Puma demorou-se pouco tempo.
Simulou a aterragem e, muito antes do Vigilante da Natureza chegar, já se
erguia novamente no ar, de regresso provavelmente à base de Gando, na Grande
Canária. Nessa noite, os calcamares e as cagarras dormiram muito mal.
LOCALIZAÇÃO E CARACTERÍSTICAS GERAIS
| As
Selvagens são um pequeno arquipélago de alinhamento SW-NE. O Grupo
Nordeste é constituído pela Selvagem Grande e dois pequenos ilhéus, o
Palheiro da Terra e o Palheiro do Mar. Ao Grupo Sudoeste pertence a
Selvagem Pequena (ou Pitão Grande) e o Ilhéu de Fora (ou Pitão
Pequeno), além numerosos ilhéus mais pequenos, nomeadamente os ilhéus
Alto, Comprido, Redondo e ilhéus do Norte. O arquipélago tem uma área
total de 273 hectares, rodeado ainda por uma extensa barreira de recifes
que dificulta o acesso às suas costas. Fica situado entre os 30º e os 30º 10' de latitude Norte, e os 16º 7' e os 16º 20' de longitude Oeste do meridiano de Greenwich, e, por conseguinte a 280 Km da Madeira e a cerca de 165 Km das Canárias. |
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| Entre a Selvagem Grande e a Selvagem Pequena distam cerca de 15 Km com uma profundidade média de 500m. Entre a Selvagem Pequena e o Ilhéu de Fora a distância é de cerca de 1,8 Km. Para dar uma ideia comparativa, a distância da Madeira ao Porto Santo é de 40 Km, e a de Peniche à Berlenga é de cerca de 10 Km. | |
| CONTENDA DE MOURA - 2 | Na
falta de uma Carta Batimétrica apresentável, proponho a imagem aqui à
esquerda, onde é possível perceber grosseiramente o relevo submarino. A
seta aponta para as Selvagens, tendo por baixo o grande arco das Canárias
e por cima, bem visível, a Madeira. Aquilo que a imagem não permite
evidenciar é que, na profundidade de 4 Km, o arquipélago da Madeira e os
vários bancos situados a NE se ligam à Península Ibérica e, nessa
mesma profundidade, o arquipélago das Selvagens e o arquipélago das
Canárias se ligam ao continente africano. Entre estes dois grandes
conjuntos, estende-se uma larga fossa chamada a Bacia Ibérica, também
com alinhamento SW-NE e que, com profundidades de 4,5 Km, parece ligar-se
ao Mediterrâneo. As grandes profundidades abaixo dos 5 Km só começam,
com a mesma direcção, mais para ocidente. Não só pela distância mas também pela existência da Bacia Ibérica, e apesar de a tais profundidades não se poder falar em termos de plataforma continental, pode dizer-se que geograficamente as Selvagens estão mais intimamente ligadas às Canárias do que à Madeira. |
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IMPORTÂNCIA RECONHECIDA
A importância das Selvagens e do seu
património natural já foi reconhecida há muito tempo. Em 1932 o governo
português legislou sobre as ilhas e considerou-as em regime de reserva de caça
a favor do respectivo proprietário. Em 1971, pelo Decreto nº 458, de 29 de
Outubro, constituía-se a Reserva das Selvagens incluindo não apenas as áreas
emersas das ilhas mas também a orla marítima que as rodeia, até à
batimétrica de 200m, numa área total de 94,55 quilómetros quadrados. A sua
vigilância permanente iniciou-se em 1976. Em 1978, pelo Decreto Regional nº
15/78/M, de 10 de Março, classificava-se como Reserva Natural a reserva
constituída em 1971, com alterações posteriores, em 1981, através do DR nº
11/81/M, de 15 de Maio.
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Em 1982 é criado o
Parque Natural da Madeira, pelo DR nº 14/82/M, de 10 de Novembro, que
incorpora no seu âmbito de actuação a Reserva Natural das Selvagens,
sendo em 1985 fixadas medidas disciplinares e de preservação através do
Decreto Legislativo Regional nº 11/85/M, de 23 de Maio. Contudo, apenas a
partir de 1989 é que os serviços do Parque Natural da Madeira se
encarregam da gestão daquela reserva natural. Em 18 de Maio de 1992, o
arquipélago recebe o Diploma Europeu da Área de Reserva Integral da
Biosfera das Selvagens por parte do Comité de Ministros do Conselho da
Europa, que tem vindo a ser renovado desde então. Em 1996, são um dos 11
Sítios que a Região da Madeira propõe no âmbito da Directiva Habitats
para integrar a Rede Europeia de Áreas Protegidas - NATURA 2000, cuja
lista final, juntamente com os Sítios designados pelos Açores, foi
enviada à Comissão das Comunidades Europeias em 28 de Novembro de 1997.
Esta rede é uma espécie de compromisso europeu em que cada país (ou
região) identifica os Sítios de Importância Comunitária, numa óptica
de conservação da natureza, que uma vez integrados na Rede NATURA
passaram a denominar-se Zonas Especiais de Conservação (ZEC). Os Sítios de Interesse Comunitário que integram aquela rede, onde as Selvagens constam com uma área total de 5752 ha, foram aprovados pela Comissão em 28 de Dezembro de 2001, nos termos da Directiva 92/43/CEE do Conselho Europeu. |
| Ainda
em finais de 2001, coincidindo com a celebração dos 30 anos da criação
da reserva, a Região Autónoma da Madeira formalizou a candidatura da
Reserva Natural das Selvagens a Património Mundial Natural da UNESCO, o
que até à data ainda não se verificou. O que o Presidente do Governo
Regional, Alberto João Jardim desdramatizou, em 2002, referindo-se à
UNESCO: «não se pode levar coisas por atacado para lá» uma vez que
apenas muito recentemente foi obtido o reconhecimento, por parte daquela
organização, da floresta laurissilva. Mas, acrescentou, «neste momento,
o grande esforço da Região Autónoma é quanto às Selvagens». De
facto, «merecem ser consideradas património da Humanidade». Mas estas
coisas «levam tempo», rematou. De facto, a candidatura foi aprovada para
figurar na lista indicativa de bens a apresentar por Portugal à comissão
permanente da UNESCO e, presentemente, considera-se efectivada a sua
transição para a lista definitiva de bens a avaliar por esta
organização. Espera-se que o reconhecimento por parte daquela
organização de que as Selvagens sejam consideradas Património Mundial
Natural ocorra ainda durante 2003 . O seu interesse científico e natural reside não apenas na avifauna marinha que ali encontra um santuário para a nidificação, mas também pela biodiversidade marinha e pela sua flora única. Em 1963 ocorreu a primeira expedição científica, organizada pelo Museu de Paris, e desde 1968 tem havido novas expedições científicas com regularidade anual. As Selvagens foram visitadas em 1991 por Mário Soares, único chefe de Estado a marcar a força da presença e soberania portuguesa: "É importante que o Presidente da República venha aqui, representando todo o povo português". |
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Contenda de Moura - 3
O episódio do helicóptero foi apenas
mais um de uma longa série. A originalidade desta vez foi o uso do helicóptero
e o assombroso descaramento espanhol. De facto, cerca de quatro meses antes, em
8 de Abril de 96, o arquipélago já tinha sido sobrevoado por aviões militares
de origem não-portuguesa. Pela silhueta seriam F-18. Situação essa que se
voltou a repetir em 18 de Outubro de 96, desta vez testemunhados pelas câmaras
da RTP que ali se encontrava a efectuar uma reportagem para o programa Bombordo.
Eram 10h da manhã e dois caças passaram no sentido Sul/Norte voltando
novamente a passar mais tarde, agora no sentido Norte/Sul.
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Foi nesse regresso que foram
filmados, tendo presumivelmente sobrevoado a Selvagem Pequena. Poucos dias
depois, a Fragata "Meko" Corte-Real, no seu regresso de Angola,
desviou a sua rota, passando pelas Selvagens "para mostrar a
bandeira". No seguimento destes episódios, o Ministério dos Negócios Estrangeiros protestou junto do governo espanhol, que não se dignou responder. No ano seguinte, em 97, no Dia da Região, a Comissão Parlamentar de Defesa, em peso, deslocou-se às Selvagens para verificar a soberania portuguesa. Se existe relatório seu, não lhe consegui pôr a vista em cima. |
Aparentemente, a causa disto tudo virá de um
acordo estabelecido em 1985 pelo Governo do Bloco Central, no âmbito da XXI
Conferência dos Estados-Maiores Peninsulares, texto esse ao qual também não
consegui aceder.
Mas o silêncio espanhol, obrigou António Vitorino, então ministro da Defesa,
a exigir novo acordo, que condicionasse os «passeios» à autorização prévia
do Governo português. O documento foi assinado em Maio de 97, mas dois meses
depois os sobrevoos repetiram-se. Em 1 de Agosto de 97, o Ministro dos Negócios
Estrangeiros, Jaime Gama, emitiu nova «nota verbal», insurgindo-se contra as
manobras militares. Sem resultado. Em 24 de Setembro os voos rasantes foram
realizados de novo.
Chamado ao MNE, o embaixador Raul Morodo disse desconhecer o caso e apresentou
desculpas formais. Quem não se explicou foi o adido aeronáutico da embaixada,
que tinha sido advertido e não preveniu a repetição dos incidentes.
Estes são os casos dos sobrevoos. Mas quanto às
águas, há registos de várias apreensões de navios pesqueiros espanhóis
desde pelo menos 72. Há ainda o relato de que em 75, porventura aproveitando a
turbulência política em Portugal, espanhóis das Canárias terem chegado a
desembarcar na Selvagem Grande e a hastear a bandeira espanhola. Dir-se-ia que
de vez em quando a costela imperialista espanhola sai da naftalina para arejar.
Era bom que Madrid compreendesse que a nossa pequenez militar e política não
tem que tolerar violações do nosso espaço aéreo nem pesca ilegal. Era bom
que Portugal também não confundisse diplomacia e bons modos com humilhação e
subserviência.
OS SENHORES DAS SELVAGENS
| A data oficial da
descoberta das Selvagens é 1438, ainda em vida do Infante D. Henrique,
dezoito anos depois do achamento da Madeira. O seu descobridor teria
sido Diogo Gomes de Sintra, num regresso da Guiné, e o Infante
tê-lo-ia autorizado a voltar lá para buscar urzela, pagando-lhe um
quinto. Contudo, não constam na relação das ilhas pertencentes à
Ordem de Cristo. João de Barros inclui-as nas Canárias e Gaspar
Frutuoso nas "Saudades da Terra" nada diz sobre as Selvagens.
Mas na 2ª edição daquele livro já diz «Estas
ilhas, chamadas Selvagens, parece que deviam ter sido achadas depois das
Canárias por castelhanos, tem senhorio castelhano, como também já
agora a Ilha da Madeira com suas adjacentes e estas dos Açores...com
que parece ficar este glorioso e poderoso Rei Católico o maior do
mundo.» Trata-se de um
acrescentamento oportuno, decerto não da autoria de Frutuoso, com o
propósito de lisonjear Filipe II. O que é seguro é que no séc. XVII eram portuguesas, tinham senhorio particular e estavam na posse dos Teixeiras Caiados, de Santa Cruz. Como foram ter a esta família, se tomadas de sesmaria a um dos donatários da Madeira ou se por doação do Mestrado, não se sabe. De 1717 em diante passam a constar em testamentos, heranças, inventários, partilhas e embargos. De 1774 a 1831 existem registos de dízimos pagos à Fazenda Real «Este primeiro Livro hade servir de contas correntes de Rendimento das Dezertas, Bugio, Salvage...». As Selvagens figuram também nos livros da Conservatória do Registo Predial do Funchal, sendo Francisco do Nascimento o possuidor mais antigo registado. |
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| Em 1863, o Sr.
João Teixeira Cabral de Noronha registou as 3 ilhas no Registo Vincular
do Distrito do Funchal. Vale a pena reproduzir aqui parte da respectiva
certidão: «Certifico eu João Guido
de Canha, Agrimensor ajuramentado pela Câmara Municipal de Villa do
Sol, que fui chamado pelo Illmº Snr. Morgado João Teixeira Cabral de
Noronha, para hir ás Ilhas Selvagens que o mesmo Illmº Snr. administra
como vinculadas, e aonde me transportei a bordo do hiate Sancto Christo
da Esperança de que é Cap. Jacome Jozé Brazil, cujas ilhas sem
habitantes estão situadas (...) e sendo por mim medidas e avaliadas nos
dias 12, 13 e 14 de Outubro d'este anno (...) e calculando o seu
rendimento em quinhentos e cincoenta mil reis (...) estimo-as todas no
valor de onze contos de reis.» No
ano seguinte, em 1864, foram hipotecadas a vários credores que se
reservaram o direito de administração. Em 1904, Constantino Cabral de
Noronha e seu irmão Francisco venderam (em quitação de dívidas de
jogo) por oito contos de reis, estas ilhas a Luiz Rocha Machado. Em 1958
diversas áreas das ilhas foram sujeitas a servidão militar, com centro
nos vértices geodésicos.
Em 1959 as Selvagens pertenciam aos herdeiros de Luiz Rocha Machado, representados por um filho do mesmo nome. Como Luiz Rocha Machado queria vender, o comprador interessado foi o WWF- World Wildlife Fund (!), através do Museu de Paris. Chegou até a estar assinada a promessa de compra. Em 1971 o Estado português interveio e adquiriu a Rocha Machado as ilhas Selvagens, por mil contos, instituindo nesse mesmo ano a Reserva Natural. |
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A
ILHA DO TESOURO
Não,
não é a história do Stevenson, mas não anda longe. Para bom enquadramento,
convém ter presentes as duas ocupações inglesas da Madeira. E simplificando,
optei pelo formato de cronologia sintética, que apresento de seguida:
| 1801
Janeiro, 29 - Ultimato franco-espanhol a Portugal, requerendo o
abandono da aliança inglesa e o fecho dos Portos aos navios britânicos; 1801 Fevereiro, 27 - Declaração de guerra da Espanha a Portugal; 1801 Maio, 20 - Invasão do Alentejo pelo exército espanhol, comandado por Godoy; 1801 Junho, 7 - Tratados de paz de Badajoz, com a Espanha pelo qual este país vê reconhecida a posse de Olivença, e com a França. Os Tratados são datados de 6 de Junho, por interesse do embaixador francês, sendo que este último não será ratificado; 1801 Julho - Inicio da 1ª ocupação inglesa da Madeira; 1801 Setembro, 29 - Tratado de paz entre Portugal e a República francesa, assinado em Madrid, em que Portugal se obriga a fechar os portos aos britânicos; 1801 Outubro, 1 - Tratado de Londres entre o Reino Unido e a França, preliminar ao de Paz de Amiens, de 25 de Março de 1802; 1802 Janeiro - Saída das forças inglesas de ocupação da Madeira; 1802 Março, 25 - Assinatura da Paz de Amiens. Entre a Inglaterra e a França; 1804 Dezembro, 12 - A Espanha declara guerra à Grã-Bretanha. 1807 Agosto, 11 - Portugal é intimado pela França a cortar as relações com a Grã-Bretanha; 1807 Setembro, 12 - Tratado Luso-Britânico; 1807 Setembro, 25 - Portugal declara aderir ao Bloqueio Continental; 1807 Outubro, 20 - Carta Régia ordenando o fecho dos portos portugueses aos navios mercantes e de guerra da Grã-Bretanha; 1807 Outubro, 22 - Convenção secreta entre Portugal e a Grã-Bretanha sobre a transferência para o Brasil da monarquia portuguesa e sobre a ocupação da ilha da Madeira por tropas britânicas; 1807 Outubro, 27 - Tratado de Fontainebleau entre a Espanha e a França que decide a partilha de Portugal; 1807 Novembro, 27 - O Príncipe Regente D. João e a Corte embarcam para o Brasil. A frota só se fará ao mar dia 29; 1807 Novembro, 30 - A vanguarda do exército francês, acompanhada por Junot, entra em Lisboa; 1807 Dezembro, 26 - Uma força militar britânica, comandada pelo general Beresford, ocupa a ilha da Madeira; 1814 Abril, 6 - Abdicação de Napoleão; 1814 Novembro, 3 - Abertura do Congresso de Viena; 1814, Dezembro - Saída das forças inglesas de ocupação, da Madeira. |
A história que se segue são na realidade quatro histórias, as três primeiras encadeadas.
| O
marinheiro espanhol Um marinheiro espanhol, de nome desconhecido, estava embarcado em 1804 num navio espanhol que se dirigia da América do Sul para Cádis, transportando um tesouro. Encontrando um navio neutral, este informou os espanhóis que a guerra tinha sido declarada a Inglaterra e que um cordão de fragatas inglesas andava a policiar aquela águas e que era impossível o acesso a Espanha. Para preservar o tesouro que lhe tinha sido confiado, o capitão resolve fazer meia-volta, rumando para as Antilhas, decisão que não teve o apoio da tripulação. O navio espanhol desceu algumas milhas abaixo da Madeira, de forma a apanhar os alíseos favoráveis, quando depararam com as Selvagens. A tripulação não perdeu a oportunidade. Mataram o capitão e enterram o tesouro. A ideia era combinarem uma história plausível e voltarem lá mais tarde, num navio de bandeira conveniente, para se apoderarem finalmente do tesouro. Mas tiveram azar. Sem o capitão, acabaram por naufragar nas Antilhas e morreram todos, excepto dois. Um desses dois morreu de febres ainda nas Antilhas e o último a saber o segredo andou embarcado noutro navio, mas devido à guerra nunca teve forma de voltar às Selvagens. A sua última viagem foi num navio dinamarquês, no qual morreu de doença. Mas antes de morrer, revelou a localização do tesouro a um outro marinheiro, um inglês chamado Christian Cruise. É necessário referir alguns detalhes do relato do moribundo sobre aquele dia trágico para o capitão espanhol. Os amotinados fundearam junto à parte sul da ilha central daquele pequeno arquipélago que fica a sul e quase na mesma longitude da Madeira. A ilha era alta, plana e verdejante no planalto. E era claramente desabitada. Desembarcaram as arcas com o tesouro e abriram uma grande vala na areia, acima da linha de maré. Enterraram as arcas e alguns metros acima puseram o caixão do capitão morto. Assim, se alguém visse as areias remexidas e resolvesse escavar, daria com o caixão e já não escavaria mais fundo. |
||||||||
| A
viagem do Prometheus A história do espanhol, relatada por Cruise, pareceu credível ao Almirantado inglês, que em 1813 organizou a ida do Prometheus às Selvagens, capitaneado por Hercules Robinson. Lá chegados, na parte sul deram com uma baía onde havia uma praia. Na areia, acima da linha de maré, uma pequena elevação. Eufóricos, desembarcaram a marujada e começaram a escavar nessa elevação. Mas não encontraram nada, além de conchas e seixos. Dispersaram-se, escavando uns aqui outros acolá, sempre sem sucesso. A faixa entre a linha de maré e a base da falésia corria ao longo de toda a baía, e um mês não chegaria para revolver aquilo tudo, por isso abandonaram as buscas e por razões várias não puderam voltar lá. Contudo, no seu relatório ao Almirantado, Robinson afirmou: "If I am asked for my own opinion (...) I certainly think it worth the while of any yachtsman to try what this might turn up." |
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A
viagem do Alerte Catorze
dias depois tinham as Selvagens à vista, no horizonte, e decidiram
explorar primeiramente a Selvagem Grande. Também à vista estava uma
pequena embarcação que parecia dirigir-se igualmente para as
Selvagens. [Chegado a este ponto da história, é preciso seguir de perto o original e pôr o discurso na primeira pessoa. Pessoa inglesa, claro está..] “Outra grande surpresa foi vermos a embarcação que tínhamos deixado para trás. Eles tinham afinal contornado a ilha pelo outro lado e encontrávamo-nos de novo. A sua tripulação, um grupo de tipos com ar selvagem, semi-nus e bronzeados, tratava de amarrar a vela principal. Ficámos a observar o que se passava.
Mal
pusemos pé em terra firme, um homem idoso, muito castanho, vestindo
calções e uma camisa esfarrapada que um dia fôra verde mas que agora
era mais parda, devido à idade e à sujidade, aproximou-se de nós com
ar cordial, e cumprimentou cada um de nós com um enérgico aperto de
mão silencioso. Dirigi-me a ele em espanhol, mas ele abanava a cabeça
e começou a falar numa língua que reconheci ser um patois
português. Apresentou-se como sendo o dono dos barris e capitão da
embarcação. Rodeava-o a sua mal-encarada tripulação, ouvindo a nossa
conversa com ar grave. Então o velho fez um gesto para o seguirmos, e
conduziu-nos a uma das furnas. A mobília era constituída por barris
como aqueles que desembarcavam, uma tina grande com uvas pretas e uns
garrafões. De entre as pedras da parede apareceu uma caneca e o homem
serviu a cada um de nós uma excelente aguardiente. Foi
então a vez do velho me fazer perguntas. Queria saber ao que vínhamos,
porque não era habitual ver navios como o nosso por aquelas bandas.
Respondi-lhe que íamos para Tenerife e que o nosso yacht era de
recreio. Subimos
ao planalto e vimos uns muros de pedras empilhadas a limitar quadrados
de terreno que devem ter sido de cultivos antigos há muito abandonados,
decerto por falta de água. Num deles vimos restos de uma vinha. Os
pescadores ignoravam completamente a história desses muros. Vimos
muitos coelhos, «gulls» e «cormorants». Caçámos uns coelhos e
contornámos a ilha toda sem descobrir nenhuma praia. Pedaços de areia,
aqui e acolá, mas nada que se parecesse com o grande areal escavado por
Robinson oitenta anos antes. Talvez tenha havido grandes mudanças desde
então e a areia tenha sido levada pelo mar. Por
causa dos recifes, ficámos a uma distância prudente, mas verificámos
que a Selvagem Pequena era muito mais rasteira que a Selvagem Grande. Um
pequeno monte cortava a monotonia da paisagem, de um verde ondulante.
Algures naquela costa, os amotinados tinham enterrado as arcas do
tesouro. Subimos
o monte, de origem vulcânica, e imediatamente reparámos nuns cristais
pretos muito grandes. Soltámos alguns da rocha e verificámos que eram
muito pesados. Imaginámos logo que se tratava de manganés ou outra
coisa assim valiosa. E havia milhares de toneladas daquilo na ilha.
Engendrámos logo ali o plano de conseguir uma concessão dos
portugueses e depois vender a concessão a uma grande companhia e
ficarmos duplamente ricos. Mais tarde, em Tenerife, mandámos analisar
uma amostra. Era horneblenda vulcânica. Valor comercial zero. Entretanto
escavámos as praias durante 3 dias sem encontrar nada. Nem era preciso
escavar muito fundo porque encontrávamos rocha. O sol subtropical
tornava-se difícil de suportar. Uma vez os ânimos aumentaram quando
alguém encontrou ossos. Seriam os do capitão espanhol? Não, afinal
eram ossos de baleia. Alguém sugeriu que a ‘ilha do meio’ pudesse
ser o ilhéu de Fora. Também lá fomos escavar mas sem melhor sucesso.
Se estivéssemos ali um mês a escavar, nunca conseguiríamos escavar
aquela areia toda.”
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| SHACKLETON Em 1921, o Sr. Luiz Rocha Machado, último proprietário das Selvagens, almoçava descansadamente no Funchal lendo um jornal inglês quando uma notícia lhe despertou a atenção. Nela dizia-se que Shackleton tencionava explorar aquelas ilhas, no regresso da sua viagem ao Pólo Sul. Shackleton era um explorador consagrado que já tinha feito várias expedições à Antártida e que nessa ocasião se preparava para efectuar aquela que seria a derradeira: a do Quest. E tencionava ir lá descobrir um fabuloso tesouro, que um corsário francês ali naufragado no século XVIII escondera em ignorado local. O proprietário telegrafou para Londres, proibindo o inglês de fazer quaisquer buscas, e nunca mais pensou no caso. Ficou sem resposta. Um dia chegou ao Funchal, no seu barco armado e equipado para a expedição, o famoso Shackleton. Machado caiu em si quando o visitante lhe pediu autorização para procurar nos ilhéus o tal tesouro, que seria dividido entre os dois. Aceitou. Iria depois a Inglaterra buscar máquinas perfuradoras, para esventrar os rochedos. É que havia nos arquivos do almirantado inglês, um documento que comprovava a história, contada por um marinheiro sobrevivente do naufrágio do corsário francês. Um dia depois, Schackleton partia para o Sul, onde morreu. Nunca chegou a ir às Selvagens, mas a história pegou e, hoje em dia, até os Vigilantes da Natureza contam aos visitantes que o Shackleton andou por lá a esburacar as falésias. |
Há muito mais histórias de tesouros escondidos nas Selvagens. Há também mais histórias de expedições para os localizar. Umas verdadeiras, outras mais fantasiosas. Eu acho que os potes com o ouro estão mesmo lá, bem escondidos à vista de todos.
O CASO DO FAROL
A intenção de construir um farol nas
ilhas Selvagens recua a 1881, numa reunião da Comissão de Faróis e Balizas,
na sequência de uma solicitação espanhola. O governo espanhol «solicitava
do governo português a sua cooperação para o estabelecimento de um
farol de primeira ordem naquela ilha». A Comissão entendeu que esse farol
interessaria fundamentalmente à navegação que se dirigisse às Canárias,
reconhecia a sua utilidade, mas entendia que Portugal não deveria contribuir
naquele momento por estar envolvido num projecto geral de iluminação das
costas de Portugal e das ilhas adjacentes que lhe absorvia todas as verbas
disponíveis. Na acta dessa reunião consta um ofício do Ministério dos
Negócios Estrangeiros espanhol, datado de 23 de Julho de 1881, que diz:
"De los antecedentes que existen en el
Ministerio de Estado em Madrid, se deduce claramente que no está determinada si
la soberania de la isla pertence a España o a Portugal."
Em Setembro de 1911, o governo português recebeu da
«Legação de Espanha» uma nota comunicando que «o seu governo ia montar nas
ilhas Selvagens um farol (...) e que deliberara incorporar as Selvagens no
arquipélago das Canárias» O governo português protestou e foi acordado
não praticar quaisquer actos que pudessem prejudicar a solução amigável da
questão.
Em 1913, o Almirante Schultz Xavier fez o reconhecimento da Selvagem Grande e no
seu relatório recomendou o Pico da Atalaia como a melhor localização para o
farol.
Em documento de 1929, o Contra-almirante Gago Coutinho esclarece que as ilhas
sempre foram consideradas dependência da Madeira e, portanto, de Portugal.
Em 1932 o governo português legislou sobre as ilhas e considerou-as em regime
de reserva de caça a favor do respectivo proprietário.
Em 1938, a Missão Hidrográfica das Ilhas Adjacentes, procedeu ao levantamento
das Ilhas Selvagens, construindo diversos marcos geodésicos.
Em 15 de Fevereiro de 1938 foi emitido um parecer pela Comissão Permanente de Direito Marítimo Internacional, atestando a nacionalidade portuguesa das Selvagens.
Em Novembro de 1958 a Direcção de Faróis
afirmava que aquelas ilhas eram um perigo para a navegação marítima, sendo
portanto um «dever internacional» construir faróis onde eles fossem julgados
necessários. É reiterado o Pico da Atalaia como o local mais adequado,
estimando-se o custo total em 2500 contos. Nesse sentido foram sujeitas a
servidão militar diversas áreas com centro nos vértices geodésicos das
Selvagens.
Em 18 de Novembro de 1971 o navio "Cerno" naufraga junto à Selvagem
Pequena.
Em 12 de Junho de 1972 o Ministro da Marinha pede a colaboração do Ministério
das Finanças para a colocação de marcos indicativos de propriedade do Estado.
E pede um novo estudo sobre a implantação de um farol. Esse estudo ficou
pronto em Janeiro de 1973 e recomendava um farol automático de alcance mínimo
de 18 milhas no Pico da Atalaia.
Em Dezembro de 1973, naufragou nas Selvagens o navio "Splendid Breeze"
e a 30 de Outubro de 1976 o iate "Demeter".
| Em 22 de Novembro de 1976 o
Chefe do Estado-Maior da armada decide a construção de um farol não
vigiado, que fica finalmente pronto em 1977. Nessa mesma data foi
também construída a casa abrigo para os vigilantes do Parque Natural. Actualmente há dois faróis semi automáticos, um na Selvagem Grande e outro na Selvagem Pequena. A equipa de faroleiros encarregue da sua manutenção vai às Selvagens de quinze em quinze dias ou de três em três semanas, aproveitando o revezamento dos Vigilantes. |
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CONTENDA DE MOURA - 4
Os episódios dos sobrevoos poderiam inserir-se no
tal acordo de 1985 entre os Estados-Maiores peninsulares? Teria Portugal
delegado a Espanha funções de patrulhamento daquela área, e então os
espanhóis estariam meramente a fazer o seu trabalho? Vejamos como as coisas se
passam em termos de controlo do tráfego aéreo.
| A RIV - Região de
Informação de Voo, é uma região cujo espaço aéreo é gerido por um
determinado centro de controlo. Cabe-lhe
garantir, de acordo com a regulamentação internacional e nas melhores
condições de segurança, a gestão do tráfego aéreo e o controlo das
rotas na totalidade da região, bem como o controlo de aproximação aos
aeroportos, através de radar e de comunicações por rádio. Na imagem ao
lado, verifica-se que o espaço aéreo da Madeira é controlado pela RIV
de Lisboa, enquanto o das Selvagens é controlado pela RIV das Canárias.
Isto, antes de mais, traduz uma fragilidade portuguesa, por falta de meios
da RAM para efectuar um controlo aéreo efectivo da sua Região, à qual
as Selvagens pertencem. O radar de apoio a construir no Porto Santo carece
de verba e o da Madeira, a construir no Pico do Areeiro, esbarra com uma
dificuldade: esse pico é o local único de nidificação da Freira da
Madeira, ave em iminência de extinção. Daqui resulta a
constatação óbvia: qualquer sobrevoo das Selvagens é detectado apenas
por radares espanhóis!
Provavelmente devido a esta fragilidade é que foi feito o acordo entre os Estados-Maiores dos dois países, cabendo à Espanha a vigilância do espaço aéreo da ZEE daquele subarquipélago. O que não retira nada à nossa soberania nem ao inerente pedido prévio por parte dos espanhóis, caso queiram sobrevoar as Selvagens. Segundo ainda o nº2 do artº 2º da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, estabelece-se que a soberania do Estado costeiro «estende-se ao espaço aéreo sobre o Mar Territorial, assim como ao leito e subsolo desse Mar». Portanto, poderiam fazer vigilância na ZEE, mas não no limite das 12 milhas, e muito menos sobre as próprias ilhas, sem autorização expressa. |
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|
A
Armada e a Força Aérea Portuguesa não têm também meios eficazes de
vigilância e fiscalização. Os navios-patrulha e corvetas há muito que
chegaram ao fim do seu prazo de vida. O que é grave, não apenas por
causa das Selvagens mas por razões também aduaneiras, de detecção e
combate à poluição, de busca e salvamento, de pesca clandestina,
etc. À região da Madeira estão adstritos um Aviocar, para
fiscalização, um helicóptero Puma e um navio patrulha da classe Cacine,
o que é de uma pobreza confrangedora e torna o arquipélago permeável a
abusos. |
Na
Cimeira de Praga, em Novembro de 2002, ficaram definidos os locais de dois
dos novos comandos operacionais. A localização do terceiro saber-se-á
em Junho de 2003. |
CONTENDA DE MOURA - 5
A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar foi assinada em
Montego Bay, na Jamaica, em 10 de Dezembro de 1982 por 119 Estados, entre os
quais Portugal. Até à data limite de 9 de Dezembro de 1984, assinaram aquele
documento mais outros 40 Estados e Organizações Internacionais, entre os quais
a Espanha e a CEE. A Convenção entrou internacionalmente em vigor em 16 de
Novembro de 1994. Na Convenção de 82 ficou estabelecido o princípio do Mar
Territorial, com 12 milhas de extensão, e o conceito de ZEE - Zona Económica
Exclusiva, com 200 milhas.
| O Mar
Territorial ficou definido como um prolongamento da parte terrestre, onde
se podem exercer todos os atributos da soberania do Estado costeiro. A ZEE
é uma porção de águas internacionais que por convenção fica adstrita
ao Estado costeiro para meros efeitos de exploração dos seus recursos.
Pode-se fiscalizar a actividade económica não autorizada, apreender
redes de pesca, embarcações, fixar coimas ou sanções administrativas,
bem como iniciativas de natureza preventiva em matéria ambiental. Há
ainda outros conceitos relacionados, como o de Alto Mar, Zona Contígua,
Plataforma Continental, Águas Interiores e Área, que não cabe aqui
desenvolver. Juntamente com o conceito de Mar Territorial, é preciso ter em conta algo mais que ficou estipulado na Convenção de 1982: o de Estados mistos (os Estados mistos são aqueles que têm uma parte continental e outra insular, o caso de Portugal e Espanha). Estes Estados mistos, nas suas ilhas não podem traçar um perímetro arquipelágico no seu Mar Territorial; as 12 milhas são consideradas ilha a ilha. Contudo, Estados arquipelágicos como a Indonésia ou as Filipinas já o podem fazer. Quanto às ZEE's, já é consentido aos Estados mistos considerar um perímetro arquipelágico. |
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| Em caso
de delimitação de águas (Territoriais ou ZEE) entre dois Estados,
adjacentes ou fronteiros, na Convenção de Montego Bay colocaram-se em
oposição 2 princípios: o princípio da equidistância e o princípio da
equidade. Vingou o princípio da solução equitativa, "derivada da
articulação da equidistância com as circunstâncias especiais".
Ou seja: a solução equitativa condiciona a aplicação da equidistância
mas não a exclui. Na prática pode até ser útil partir da linha mediana
para alcançar uma solução equitativa. Mas que circunstâncias
especiais são essas?
Mas a equidistância entre o quê? Entre as
Selvagens e as Canárias, evidentemente. Ora os nossos amigos espanhóis,
como já não podiam reclamar a soberania das Selvagens, lembraram-se de
uma coisa engraçada: só as ilhas têm ZEE; os rochedos não. Portanto,
invocaram que as Selvagens eram meros rochedos, logo sem ZEE, e
consequentemente a mediana das ZEE's deveria ser traçada entre a
Madeira e as Canárias, de caminho deixando as Selvagens encravadas dentro
dessa nova ZEE das Canárias. Ou seja, toda a zona assinalada com Y
(excepto as 12 milhas de Mar Territorial de cada uma das Selvagens)
reverteria para as Canárias. Entaladas por Marrocos e pelo Sahara
Ocidental, as Canárias só se podem estender à vontade para Oeste. Daí
a cobiça relativamente àquelas águas.
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| Agradecimentos: Paula Martins; António Martins; Paulo Salteiro; Francisco Castillo. João Firmino Março 2003 © Insónias Oníricas |
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