As Ilhas Selvagens são a parte mais meridional do território português, um subarquipélago da Região Autónoma da Madeira, frequentemente esquecidas por parte da maioria dos portugueses e desconhecidas por muitos. Arrumadas na categoria de "coisa que está para ali", pequenas e remotas, dir-se-ia terem um interesse proporcional ao seu tamanho. Nada mais errado, defendo eu.

Este artigo reflecte a minha própria surpresa. Parti à descoberta das Selvagens numa perspectiva determinada, mas a cada passo fui-me espantando, aqui e ali, com novos e variados motivos de interesse, que explorei o mais que pude e soube. Contudo, só aparentemente me dispersei em relação ao caminho traçado, tentando conciliá-lo com a expressão desse deslumbramento. 

Cabe ainda referir que o que vos trago não é minimamente exaustivo. Muitos aspectos ficaram por tratar, outros tantos por aprofundar.

Eu apenas proponho uma visita virtual às Ilhas Selvagens. A viagem agora é vossa.  Respirem o seu ar salgado. Sintam a dignidade da sua pequenez delicada, com o som do mar sempre por fundo


CONTENDA DE MOURA - 1
N
aquele dia 2 de Agosto de 1996, o pequeno cão não parava de ladrar. Os dois Vigilantes da Natureza perceberam logo que se passava qualquer coisa de anormal e saíram da casa para ver o que se passava.
-Devem ser os caças espanhóis outra vez - disse um, enquanto o ruído de fundo se tornava cada vez mais perceptível.
-Não, não -disse o colega- isto é som de motor de helicóptero.
De facto, pouco depois, um Puma AS-330 da força aérea espanhola tentava  aterrar  na Selvagem Grande, cometendo assim uma dupla infracção: não só violava o espaço aéreo português, como também sobrevoava a menos de 200 metros uma Reserva Natural, o que é proibido.
Ainda lhes ocorreu poder tratar-se de uma emergência, mas pelo comportamento do Puma, nas suas ousadas evoluções sobre o terreno, percebia-se não ser esse o caso. Gesticularam um protesto, mas o aparelho espanhol, ignorando-os, foi tentar aterrar no planalto Norte.
Olharam ambos para os mastros sobre a casa, confirmando que as bandeiras, a de Portugal e a da Região Autónoma se mantinham hasteadas. Depois um deles dirigiu-se à furna onde está o rádio, para contactar a capitania do Funchal. O outro subiu o carreiro até ao planalto, e seguindo com os binóculos o voo do helicóptero, tomou o caminho da cisterna velha. O Puma demorou-se pouco tempo. Simulou a aterragem e, muito antes do Vigilante da Natureza chegar, já se erguia novamente no ar, de regresso provavelmente à base de Gando, na Grande Canária. Nessa noite, os calcamares e as cagarras dormiram muito mal.


LOCALIZAÇÃO E CARACTERÍSTICAS GERAIS

As Selvagens são um pequeno arquipélago de alinhamento SW-NE. O Grupo Nordeste é constituído pela Selvagem Grande e dois pequenos ilhéus, o Palheiro da Terra e o Palheiro do Mar. Ao Grupo Sudoeste pertence a Selvagem Pequena (ou Pitão Grande) e o Ilhéu de Fora (ou Pitão Pequeno), além numerosos ilhéus mais pequenos, nomeadamente os ilhéus Alto, Comprido, Redondo e ilhéus do Norte. O arquipélago tem uma área total de 273 hectares, rodeado ainda por uma extensa barreira de recifes que dificulta o acesso às suas costas.
Fica situado entre os 30º e os 30º 10' de latitude Norte, e os 16º 7' e os 16º 20' de longitude Oeste do meridiano de Greenwich, e, por conseguinte a 280 Km da Madeira e a cerca de 165 Km das Canárias.
Entre a Selvagem Grande e a Selvagem Pequena distam cerca de 15 Km com uma profundidade média de 500m. Entre a Selvagem Pequena e o Ilhéu de Fora a distância é de cerca de 1,8 Km. Para dar uma ideia comparativa, a distância da Madeira ao Porto Santo é de 40 Km, e a de Peniche à Berlenga é de cerca de 10 Km.
Como todas as ilhas da Macaronésia, as Selvagens formaram-se devido ao fenómeno de abertura do Oceano Atlântico, um fenómeno geológico que se continua a processar ao ritmo de dois ou três centímetros por ano, mas que já dura há 200 milhões de anos. Deve-se a um fenómeno tectónico de tipo 'rift', cujo movimento se caracteriza por duas placas divergirem uma em relação à outra devido à ascensão de magma proveniente do manto. Este afluir não é constante em ritmo e quantidade, e assim no novo fundo oceânico emergem montanhas submarinas de alguma importância, algumas das quais excedem por vezes os cinco ou seis quilómetros de profundidade a que tudo isto se passa. Os seus cumes são as ilhas oceânicas. As Selvagens foram originadas por este processo, numa altura em que o Atlântico era bem menos largo.
Considerando o dispositivo geral e a batimetria do conjunto das Selvagens, verifica-se a existência de dois aparelhos vulcânicos, de forma sensivelmente arredondada, cuja base segue aproximadamente a curva dos -1000m, com terraços assimétricos relativamente às duas ilhas principais à medida que a profundidade diminui, devido à forte acção erosiva que se faz sentir do lado norte. Existe ainda um relevo submarino acentuado, a NE da Selvagem Pequena, que pode corresponder aos restos de uma antiga cratera vulcânica submarina destruída e cujos bordos seriam marcados pela presença dos diversos ilhéus e recifes. 

As temperaturas nas Selvagens são mais elevadas que na Madeira e, dentro de água, a temperatura é confortável todo o ano. Costeau disse ter encontrado ali as águas mais límpidas do mundo.
Actualmente, as Selvagens só podem ser visitadas com uma autorização especial do Parque Natural da Madeira.

CONTENDA DE MOURA - 2 Na falta de uma Carta Batimétrica apresentável, proponho a imagem aqui à esquerda, onde é possível perceber grosseiramente o relevo submarino. A seta aponta para as Selvagens, tendo por baixo o grande arco das Canárias e por cima, bem visível, a Madeira. Aquilo que a imagem não permite evidenciar é que, na profundidade de 4 Km, o arquipélago da Madeira e os vários bancos situados a NE se ligam à Península Ibérica e, nessa mesma profundidade, o arquipélago das Selvagens e o arquipélago das Canárias se ligam ao continente africano. Entre estes dois grandes conjuntos, estende-se uma larga fossa chamada a Bacia Ibérica, também com alinhamento SW-NE e que, com profundidades de 4,5 Km, parece ligar-se ao Mediterrâneo. As grandes profundidades abaixo dos 5 Km só começam, com a mesma direcção, mais para ocidente.

Não só pela distância mas também pela existência da Bacia Ibérica, e apesar de a tais profundidades não se poder falar em termos de plataforma continental, pode dizer-se que geograficamente as Selvagens estão mais intimamente ligadas às Canárias do que à Madeira.

IMPORTÂNCIA RECONHECIDA
A
importância das Selvagens e do seu património natural já foi reconhecida há muito tempo. Em 1932 o governo português legislou sobre as ilhas e considerou-as em regime de reserva de caça a favor do respectivo proprietário. Em 1971, pelo Decreto nº 458, de 29 de Outubro, constituía-se a Reserva das Selvagens incluindo não apenas as áreas emersas das ilhas mas também a orla marítima que as rodeia, até à batimétrica de 200m, numa área total de 94,55 quilómetros quadrados. A sua vigilância permanente iniciou-se em 1976. Em 1978, pelo Decreto Regional nº 15/78/M, de 10 de Março, classificava-se como Reserva Natural a reserva constituída em 1971, com alterações posteriores, em 1981, através do DR nº 11/81/M, de 15 de Maio. 

Em 1982 é criado o Parque Natural da Madeira, pelo DR nº 14/82/M, de 10 de Novembro, que incorpora no seu âmbito de actuação a Reserva Natural das Selvagens, sendo em 1985 fixadas medidas disciplinares e de preservação através do Decreto Legislativo Regional nº 11/85/M, de 23 de Maio. Contudo, apenas a partir de 1989 é que os serviços do Parque Natural da Madeira se encarregam da gestão daquela reserva natural. Em 18 de Maio de 1992, o arquipélago recebe o Diploma Europeu da Área de Reserva Integral da Biosfera das Selvagens por parte do Comité de Ministros do Conselho da Europa, que tem vindo a ser renovado desde então. Em 1996, são um dos 11 Sítios que a Região da Madeira propõe no âmbito da Directiva Habitats para integrar a Rede Europeia de Áreas Protegidas - NATURA 2000, cuja lista final, juntamente com os Sítios designados pelos Açores, foi enviada à Comissão das Comunidades Europeias em 28 de Novembro de 1997. Esta rede é uma espécie de compromisso europeu em que cada país (ou região) identifica os Sítios de Importância Comunitária, numa óptica de conservação da natureza, que uma vez integrados na Rede NATURA passaram a denominar-se Zonas Especiais de Conservação (ZEC). 
Os Sítios de Interesse Comunitário que integram aquela rede, onde as Selvagens constam com uma área total de 5752 ha, foram aprovados pela Comissão em 28 de Dezembro de 2001, nos termos da Directiva 92/43/CEE do Conselho Europeu. 
Ainda em finais de 2001, coincidindo com a celebração dos 30 anos da criação da reserva, a Região Autónoma da Madeira formalizou a candidatura da Reserva Natural das Selvagens a Património Mundial Natural da UNESCO, o que até à data ainda não se verificou. O que o Presidente do Governo Regional, Alberto João Jardim desdramatizou, em 2002, referindo-se à UNESCO: «não se pode levar coisas por atacado para lá» uma vez que apenas muito recentemente foi obtido o reconhecimento, por parte daquela organização, da floresta laurissilva. Mas, acrescentou, «neste momento, o grande esforço da Região Autónoma é quanto às Selvagens». De facto, «merecem ser consideradas património da Humanidade». Mas estas coisas «levam tempo», rematou. De facto, a candidatura foi aprovada para figurar na lista indicativa de bens a apresentar por Portugal à comissão permanente da UNESCO e, presentemente, considera-se efectivada a sua transição para a lista definitiva de bens a avaliar por esta organização. Espera-se que o reconhecimento por parte daquela organização de que as Selvagens sejam consideradas Património Mundial Natural ocorra ainda durante 2003 .

O seu interesse científico e natural reside não apenas na avifauna marinha que ali encontra um santuário para a nidificação, mas também pela biodiversidade marinha e pela sua flora única. Em 1963 ocorreu a primeira expedição científica, organizada pelo Museu de Paris, e desde 1968 tem havido novas expedições científicas com regularidade anual. 

As Selvagens foram visitadas em 1991 por Mário Soares, único chefe de Estado a marcar a força da presença e soberania portuguesa: "É importante que o Presidente da República venha aqui, representando todo o povo português".


Contenda de Moura - 3
O
episódio do helicóptero foi apenas mais um de uma longa série. A originalidade desta vez foi o uso do helicóptero e o assombroso descaramento espanhol. De facto, cerca de quatro meses antes, em 8 de Abril de 96, o arquipélago já tinha sido sobrevoado por aviões militares de origem não-portuguesa. Pela silhueta seriam F-18. Situação essa que se voltou a repetir em 18 de Outubro de 96, desta vez testemunhados pelas câmaras da RTP que ali se encontrava a efectuar uma reportagem para o programa Bombordo. Eram 10h da manhã e dois caças passaram no sentido Sul/Norte voltando novamente a passar mais tarde, agora no sentido Norte/Sul. 

Foi nesse regresso que foram filmados, tendo presumivelmente sobrevoado a Selvagem Pequena. Poucos dias depois, a Fragata "Meko" Corte-Real, no seu regresso de Angola, desviou a sua rota, passando pelas Selvagens "para mostrar a bandeira".
No seguimento destes episódios, o Ministério dos Negócios Estrangeiros protestou junto do governo espanhol, que não se dignou responder. No ano seguinte, em 97, no Dia da Região, a Comissão Parlamentar de Defesa, em peso, deslocou-se às Selvagens para verificar a soberania portuguesa. Se existe relatório seu, não lhe consegui pôr a vista em cima.

Aparentemente, a causa disto tudo virá de um acordo estabelecido em 1985 pelo Governo do Bloco Central, no âmbito da XXI Conferência dos Estados-Maiores Peninsulares, texto esse ao qual também não consegui aceder.
Mas o silêncio espanhol, obrigou António Vitorino, então ministro da Defesa, a exigir novo acordo, que condicionasse os «passeios» à autorização prévia do Governo português. O documento foi assinado em Maio de 97, mas dois meses depois os sobrevoos repetiram-se. Em 1 de Agosto de 97, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Jaime Gama, emitiu nova «nota verbal», insurgindo-se contra as manobras militares. Sem resultado. Em 24 de Setembro os voos rasantes foram realizados de novo.
Chamado ao MNE, o embaixador Raul Morodo disse desconhecer o caso e apresentou desculpas formais. Quem não se explicou foi o adido aeronáutico da embaixada, que tinha sido advertido e não preveniu a repetição dos incidentes.

Estes são os casos dos sobrevoos. Mas quanto às águas, há registos de várias apreensões de navios pesqueiros espanhóis desde pelo menos 72. Há ainda o relato de que em 75, porventura aproveitando a turbulência política em Portugal, espanhóis das Canárias terem chegado a desembarcar na Selvagem Grande e a hastear a bandeira espanhola. Dir-se-ia que de vez em quando a costela imperialista espanhola sai da naftalina para arejar. Era bom que Madrid compreendesse que a nossa pequenez militar e política não tem que tolerar violações do nosso espaço aéreo nem pesca ilegal. Era bom que Portugal também não confundisse diplomacia e bons modos com humilhação e subserviência.


A SELVAGEM GRANDE
A Selvagem Grande, a maior ilha do arquipélago, tem formato pentagonal e uma superfície de cerca de 5 quilómetros quadrados, com 2 km de comprimento N-S entre a Ponta do Corgo de Areia e a Ponta do Inferno, e aproximadamente 2 km de largura E-W entre a Ponta de Leste e a Ponta da Atalaia. As suas costas são escarpadas pela abrasão marinha e de difícil abordagem, dado o grande número de rochas que a rodeiam. As escarpas marítimas da ilha podem atingir 100 metros de altura, sendo porém os terrenos interiores mais ou menos planos, excepto a leste, onde se ergue o pico dos Tornozelos, e a oeste, onde está o pico da Atalaia, o ponto culminante da ilha, com cerca de 163 metros. Dali, em dias de boa visibilidade, consegue-se avistar, a sul, os 3178m do Pico de Teide, em Tenerife, nas Canárias, a 234 km de distância. Na parte sul da Selvagem Grande há ainda um pequeno cabeço, o do Inferno, a cerca de 115 metros acima do nível do mar.
Os seus melhores ancoradouros são a enseada das Pardelas, a leste, e uma outra ao sul, protegida pelo cabeço do Inferno, no sítio a que chamam a «Estância», a sudoeste, na Baía das Cagarras. Este é o melhor local para o desembarque, sendo por isso que para ali se dirigem os barcos quando existe gente para lançar em terra. 

Fragmento da Carta Militar de Portugal, na escala 1:25 000 série P821, folha 15, Ilhas Selvagens (Madeira), de 1967, editada pelo Instituto Geográfico do Exército.

Há naquele sítio a casa dos Vigilantes da Natureza e, por cima, duas  furnas com parede e porta. Uma delas é onde está localizado o aparelho de rádio com o qual se contacta três vezes por dia com a capitania do Funchal; a outra é um antigo abrigo particular, hoje pertença do Parque Natural. Para o interior da ilha existe um farol e, na parte central, existiu ainda uma casinhota coberta de folhas de zinco, que foi construída pelos militares que estiveram ali instalados alguns meses, logo após a revolução de 1974, e que actualmente está totalmente desfeita. Construíram-se na Selvagem Grande duas cisternas onde se encontra água durante todo o ano, e há também ali três pequenas fontes: a das Ovelhas, sob o pico da Atalaia, a Salgada e a das Galinhas, que só fornecem alguma água durante uma parte do ano. Há vestígios de colonização (ou tentativa) - agricultura em socalcos, muros, uma cisterna, condutas para água e uma fornalha de soda.
A paisagem da Selvagem Grande é dominada pelas escuras escória e cinza vulcânicas, e há numerosas grutas resultantes de um antigo canal vulcânico, com as paredes recobertas de sulfato de cálcio. Geologicamente é possível identificar quatro grandes complexos: o complexo vulcânico inferior fonolítico que ficou emerso e sujeito a abrasão marinha,  ao qual se sobrepôs uma camada sedimentar de areias brancas calcárias; sobre este conjunto existe o complexo vulcânico superior, basáltico, cujas cinzas ficaram cimentadas pelo calcário da base, e por cima de tudo isto uma camada de areias calcárias com conchas de caracóis e restos de cascalheiras de praias antigas na sua base. 
O clima é subtropical marítimo, como na Madeira, mas muito menos húmido. De facto, a baixa altitude não favorece a condensação, e as nuvens passam, sem que se produza precipitação. A vegetação endémica sofreu com a introdução de cabras e de coelhos por parte do Infante D. Henrique . As cabras extinguiram-se nos finais do séc. XIX mas os coelhos são às centenas. Há também milhares de hóspedes indesejados: os ratos. De assinalar, finalmente, uma espécie endémica de osga, a Tarentola boettgeri bischoffi. Botanicamente, dominam as espécies introduzidas, entre as quais um parente do tabaqueiro que já ocupa uma grande área e que pode vir a tornar-se uma praga perigosa.  Mas a grande riqueza da Selvagem Grande é o facto de ser um paraíso para a avifauna marinha devido à ausência do Homem e de outros perigos para as crias e ovos, bem como abundância de alimento. Contam-se 19 mil casais de Painho-de-ventre-branco e 30 mil casais de Cagarras que são alvo de cobiça por parte de caçadores furtivos. Para esta ave, uma espécie de gaivota que só regressa ao ninho à noite, as Selvagens são uma a maior colónia de nidificação do Atlântico Norte. Chegam em Fevereiro/Março para acasalarem, e o ovo único é posto no final de Maio, eclodindo 45 dias depois. Os juvenis aprendem a voar em Setembro, começando por perder o peso acumulado. Esta gordura excessiva era a riqueza das Selvagens. Iam pescadores do Machico, Caniçal e S. Gonçalo, os 'rocheiros', homens que se dedicavam a capturar cagarras antes destas poderem voar, por vezes mil por dia,  que depois de depenadas e salgadas eram vendidas no Funchal às classes mais desfavorecidas. Estas caçadas não tiveram um efeito muito nefasto sobre a população de cagarras até à introdução do barco a motor, que permitiu capturar maiores quantidades e aumentar o número de viagens anuais. Actualmente todos os ninhos de cagarras estão numerados e todas as aves estão anilhadas. Está em curso um projecto que permite seguir as rotas migratórias daquelas aves que se crê que chegam tão longe quanto a Patagónia. A avifauna conta ainda com o  Calcamar, Pelagodroma marina, a Alma Negra, Bulweria bulwerii, o pintainho, Puffinus assimilis, e o raríssimo Garajau Rosado, Sterna dougalli. Uma praga potencial é a gaivota comum, ou argêntea, que lá chegou recentemente na esteira dos grandes navios atuneiros. Já conta com 12 casais e é constantemente monitorizada para não se repetir o que aconteceu na Berlenga, em que estas agressivas aves expulsaram a variante mediterrânica mais rara.
Dentro do arquipélago, a Selvagem Grande é a única ilha que é habitada permanentemente. De três em três semanas, um navio da armada leva a equipa de Vigilantes da Natureza, do Parque Natural da Madeira, que vai revezar a anterior, e a equipa que faz a manutenção do farol, transportando ainda bidons de água, alimentos e combustível. Estes profissionais, além do trabalho de vigilância constante, ainda asseguram um grande volume de trabalho científico de rotina, monitorizando diversos parâmetros ambientais, em terra e no mar.


Casa dos Vigilantes da Natureza


OS SENHORES DAS SELVAGENS

A data oficial da descoberta das Selvagens é 1438, ainda em vida do Infante D. Henrique, dezoito anos depois do achamento da Madeira. O seu descobridor teria sido Diogo Gomes de Sintra, num regresso da Guiné, e o Infante tê-lo-ia autorizado a voltar lá para buscar urzela, pagando-lhe um quinto. Contudo, não constam na relação das ilhas pertencentes à Ordem de Cristo. João de Barros inclui-as nas Canárias e Gaspar Frutuoso nas "Saudades da Terra" nada diz sobre as Selvagens. Mas na 2ª edição daquele livro já diz  «Estas ilhas, chamadas Selvagens, parece que deviam ter sido achadas depois das Canárias por castelhanos, tem senhorio castelhano, como também já agora a Ilha da Madeira com suas adjacentes e estas dos Açores...com que parece ficar este glorioso e poderoso Rei Católico o maior do mundo.» Trata-se de um acrescentamento oportuno, decerto não da autoria de Frutuoso, com o propósito de lisonjear Filipe II. 
O que é seguro é que no séc. XVII eram portuguesas, tinham senhorio particular e estavam na posse dos Teixeiras Caiados, de Santa Cruz. Como foram ter a esta família, se tomadas de sesmaria a um dos donatários da Madeira ou se por doação do Mestrado, não se sabe. De 1717 em diante passam a constar em testamentos, heranças, inventários, partilhas e embargos. De 1774 a 1831 existem registos de dízimos pagos à Fazenda Real «
Este primeiro Livro hade servir de contas correntes de Rendimento das Dezertas, Bugio, Salvage...». As Selvagens figuram também nos livros da Conservatória do Registo Predial do Funchal, sendo Francisco do Nascimento o possuidor mais antigo registado.
Em 1863, o Sr. João Teixeira Cabral de Noronha registou as 3 ilhas no Registo Vincular do Distrito do Funchal. Vale a pena reproduzir aqui parte da respectiva certidão: «Certifico eu João Guido de Canha, Agrimensor ajuramentado pela Câmara Municipal de Villa do Sol, que fui chamado pelo Illmº Snr. Morgado João Teixeira Cabral de Noronha, para hir ás Ilhas Selvagens que o mesmo Illmº Snr. administra como vinculadas, e aonde me transportei a bordo do hiate Sancto Christo da Esperança de que é Cap. Jacome Jozé Brazil, cujas ilhas sem habitantes estão situadas (...) e sendo por mim medidas e avaliadas nos dias 12, 13 e 14 de Outubro d'este anno (...) e calculando o seu rendimento em quinhentos e cincoenta mil reis (...) estimo-as todas no valor de onze contos de reis.» No ano seguinte, em 1864, foram hipotecadas a vários credores que se reservaram o direito de administração. Em 1904, Constantino Cabral de Noronha e seu irmão Francisco venderam (em quitação de dívidas de jogo) por oito contos de reis, estas ilhas a Luiz Rocha Machado. Em 1958 diversas áreas das ilhas foram sujeitas a servidão militar, com centro nos vértices geodésicos.

Em 1959 as Selvagens pertenciam aos herdeiros de Luiz Rocha Machado, representados por um filho do mesmo nome. Como Luiz Rocha Machado queria vender, o comprador interessado foi o WWF- World Wildlife Fund (!), através do Museu de Paris. Chegou até a estar assinada a promessa de compra. Em 1971 o Estado português interveio e adquiriu a Rocha Machado as ilhas Selvagens, por mil contos, instituindo nesse mesmo ano a Reserva Natural.


 

A SELVAGEM PEQUENA E O ILHÉU DE FORA

A Selvagem Pequena, que domina o Grupo Sudoeste, tem uma área de apenas 20 ha, e é circundada por numerosos recifes que tornam o desembarque difícil. O comprimento é da ordem de 1 km E-W e a largura de cerca de 500 m N-S. A superfície, relativamente plana, desenvolve-se a uma altitude média de 10 m. Nas marés baixas, extensos baixios planos ficam emersos duplicando assim a superfície da ilha. A sua única elevação é o Pico do Veado, cabeço rochoso com 49 metros de altitude na costa N da ilha.


A Selvagem Pequena, assim como os recifes e ilhéus circundantes, são constituídos, à semelhança da Selvagem Grande, por um complexo fonolítico recortado por filões basálticos, mas a parte central, plana até à cota dos 20m, está coberta por um depósito de areias quaternárias semelhantes às areias douradas do Porto Santo. Por baixo das areias e cobrindo o complexo fonolítico existem conglomerados conquíferos de praias antigas, mais ou menos consolidados com cimento calcário. Este conglomerado calcário encontra-se a cerca de 1,5m acima do nível do mar na costa ocidental, e a SW do pico do Veado na cota dos 18m.

 

Existem na Selvagem Pequena 9 espécies de plantas únicas, o que é uma densidade enorme de endemismos dentro dos 11 que existem dentro de todo o subarquipélago. São espécies-relíquia, que não existem em mais lado nenhum do mundo, adaptadas aos alíseos carregados de maresia: Lobularia canariensis (DC.) Borgen ssp. rosula-venti (Svent.) Borgen, Scilla maderensis Menezes var. melliodora Svent., Limonium papillatum var. callibotryum, Lotus salvagensis Murr. e Euphorbia anachoreta Svent.

 

 Entes endemismos subsistiram porque ali nunca foram introduzidos herbívoros, o que faz da Selvagem Pequena um raríssimo santuário natural. 

Diferentemente da Selvagem Grande, na Pequena não existem nem fontes nem cisternas. Contudo, existem vestígios de antiga ocupação, nomeadamente umas paredes, geralmente utilizadas como abrigo por parte dos visitantes ocasionais. Existe ainda uma pequena casa que serve de apoio aos Vigilantes da Natureza quando ali se deslocam.

 

Separado da Selvagem Pequena por um braço de mar com cerca duma milha de extensão, está o ilhéu de Fora, completamente preservado de influências externas. É um ilhéu baixo, com 18 m de altitude e 8,1 ha de área, em grande parte coberto de areias, cuja espessura pode atingir cerca de 10m. Tem um comprimento de 400m e uma largura máxima de 250m. É desprovido de águas e não tem elevação alguma, abundando nele os calcamares, ave marinha que faz criação em escavações ou galerias subterrâneas. Idênticas escavações se encontram na Selvagem Grande. É feita também a monitorização da gaivota argêntea.

No ilhéu de Fora é abundante uma variedade da Euphorbia obtusifolia. Em estreita associação com aquela planta, vive o escaravelho Deucalion oceanicus, uma espécie única, endémica do Ilhéu de Fora.

Neste ilhéu, como aliás nos demais, a área emersa duplica com a baixa-mar.

Dentro dos restantes ilhéus do Grupo Sudoeste, há a destacar o Ilhéu do Norte, o Ilhéu Redondo, o Ilhéu Comprido e o Ilhéu Alto. São rochedos com alturas entre 2 e 6m. 

O Instituto Hidrográfico instala no Pico do Veado um GGPS, integrado no sistema de redes geodésicas de grande precisão.
Abrigo e casa de apoio dos Vigilantes na Selvagem Pequena. Os projectos são construir uma casa melhor e um abrigo para um barco, o que permitirá uma vigilância mais eficaz desta ilha. Há também projectos para deslocar para ali um outro vigilante durante os meses de Verão.
 

 

A Selvagem Pequena vista a partir do Ilhéu de Fora, com as suas areias calcárias em primeiro plano. 
Na Selvagem Pequena, à esquerda do Pico do Veado vê-se o que resta do petroleiro "Cerno", ali naufragado em 18 de Novembro de 1971.

A ILHA DO TESOURO
Não, não é a história do Stevenson, mas não anda longe. Para bom enquadramento, convém ter presentes as duas ocupações inglesas da Madeira. E simplificando, optei pelo formato de cronologia sintética, que apresento de seguida:

1801 Janeiro, 29 - Ultimato franco-espanhol a Portugal, requerendo o abandono da aliança inglesa e o fecho dos Portos aos navios britânicos;
1801 Fevereiro, 27 - Declaração de guerra da Espanha a Portugal;
1801 Maio, 20 - Invasão do Alentejo pelo exército espanhol, comandado por Godoy;
1801 Junho, 7 - Tratados de paz de Badajoz, com a Espanha pelo qual este país vê reconhecida a posse de Olivença, e com a França. Os Tratados são datados de 6 de Junho, por interesse do embaixador francês, sendo que este último não será ratificado;
1801 Julho - Inicio da 1ª ocupação inglesa da Madeira;
1801 Setembro, 29 -
Tratado de paz entre Portugal e a República francesa, assinado em Madrid, em que Portugal se obriga a fechar os portos aos britânicos;
1801 Outubro, 1 - Tratado de Londres entre o Reino Unido e a França, preliminar ao de Paz de Amiens, de 25 de Março de 1802;
1802  Janeiro - Saída das forças inglesas de ocupação da Madeira;
1802 Março, 25 - Assinatura da Paz de Amiens. Entre a Inglaterra e a França;
1804 Dezembro, 12 - A Espanha declara guerra à Grã-Bretanha.
1807 Agosto, 11 - Portugal é intimado pela França a cortar as relações com a Grã-Bretanha;
1807 Setembro, 12 - Tratado Luso-Britânico;
1807 Setembro, 25 - Portugal declara aderir ao Bloqueio Continental;
1807 Outubro, 20 - Carta Régia ordenando o fecho dos portos portugueses aos navios mercantes e de guerra da Grã-Bretanha;
1807 Outubro, 22 - Convenção secreta entre Portugal e a Grã-Bretanha sobre a transferência para o Brasil da monarquia portuguesa e sobre a ocupação da ilha da Madeira por tropas britânicas;
1807 Outubro, 27 - Tratado de Fontainebleau entre a Espanha e a França que decide a partilha de Portugal;
1807 Novembro, 27 - O Príncipe Regente D. João e a Corte embarcam para o Brasil. A frota só se fará ao mar dia 29;
1807 Novembro, 30 - A vanguarda do exército francês, acompanhada por Junot, entra em Lisboa;
1807 Dezembro, 26 - Uma força militar britânica, comandada pelo general Beresford, ocupa a ilha da Madeira;
1814 Abril, 6 -
Abdicação de Napoleão;
1814 Novembro, 3 - Abertura do Congresso de Viena;
1814, Dezembro - Saída das forças inglesas de ocupação, da Madeira.

A história que se segue são na realidade quatro histórias, as três primeiras encadeadas.

O marinheiro espanhol
Um marinheiro espanhol, de nome desconhecido, estava embarcado em 1804 num navio espanhol que se dirigia da América do Sul para Cádis, transportando um tesouro.  Encontrando um navio neutral, este informou os espanhóis que a guerra tinha sido declarada a Inglaterra e que um cordão de fragatas inglesas andava a policiar aquela águas e que era impossível o acesso a Espanha. Para preservar o tesouro que lhe tinha sido confiado, o capitão resolve fazer meia-volta, rumando para as Antilhas, decisão que não teve o apoio da tripulação.  O navio espanhol desceu algumas milhas abaixo da Madeira, de forma a apanhar os alíseos favoráveis, quando depararam com as Selvagens. A tripulação não perdeu a oportunidade. Mataram o capitão e enterram o tesouro. A ideia era combinarem uma história plausível e voltarem lá mais tarde, num navio de bandeira conveniente, para se apoderarem finalmente do tesouro. Mas tiveram azar. Sem o capitão, acabaram por naufragar nas Antilhas e morreram todos, excepto dois. Um desses dois morreu de febres ainda nas Antilhas e o último a saber o segredo andou embarcado noutro navio, mas devido à guerra nunca teve forma de voltar às Selvagens. A sua última viagem foi num navio dinamarquês, no qual morreu de doença. Mas antes de morrer, revelou a localização do tesouro a um outro marinheiro, um inglês chamado Christian Cruise. 

É necessário referir alguns detalhes do relato do moribundo sobre aquele dia trágico para o capitão espanhol.  Os amotinados fundearam junto à parte sul da ilha central daquele pequeno arquipélago que fica a sul e quase na mesma longitude da Madeira. A ilha era alta, plana e verdejante no planalto. E era claramente desabitada. Desembarcaram as arcas com o tesouro e abriram uma grande vala na areia, acima da linha de maré. Enterraram as arcas e alguns metros acima puseram o caixão do capitão morto. Assim, se alguém visse as areias remexidas e resolvesse escavar, daria com o caixão e já não escavaria mais fundo.
A viagem do Prometheus
A história do espanhol, relatada por Cruise, pareceu credível ao Almirantado inglês, que em 1813 organizou a ida do Prometheus às Selvagens, capitaneado por Hercules Robinson. Lá chegados, na parte sul deram com uma baía onde havia uma praia. Na areia, acima da linha de maré, uma pequena elevação. Eufóricos, desembarcaram a marujada e começaram a escavar nessa elevação. Mas não encontraram nada, além de conchas e seixos. Dispersaram-se, escavando uns aqui outros acolá, sempre sem sucesso. A faixa entre a linha de maré e a base da falésia corria ao longo de toda a baía, e um mês não chegaria para revolver aquilo tudo, por isso abandonaram as buscas e por razões várias não puderam voltar lá. Contudo, no seu relatório ao Almirantado, Robinson afirmou: "If I am asked for my own opinion (...) I certainly think it worth the while of any yachtsman to try what this might turn up."

A viagem do Alerte
Quase oitenta anos depois da viagem do Prometheus, em 1889, é a vez do «cutter-yacht» Alerte tentar a sua sorte. O destino do capitão Knight era a ilha da Trinidad, mas foi persuadido por um tal Sr. Picket que valia a pena fazer um pequeno desvio na rota e escalar nas Selvagens, tendo em conta uma nova pista. O Sr. Picket reparara que no relato inicial do espanhol ele tinha referido o esconderijo do tesouro como sendo na ilha central, enquanto o Robinson tinha procurado na Selvagem Grande. Ora, olhando para o mapa, a ilha central só poderia ser a Selvagem Pequena. Só havia um percalço: aquelas ilhas eram frequentadas por pescadores portugueses, pelo que assentaram ser melhor irem armados para fazer frente a qualquer eventual tentativa de resistência. Até os poderiam utilizar para as escavações.

Catorze dias depois tinham as Selvagens à vista, no horizonte, e decidiram explorar primeiramente a Selvagem Grande. Também à vista estava uma pequena embarcação que parecia dirigir-se igualmente para as Selvagens.
O Alerte contornou a Selvagem Grande por NE e ao passar o cabo pareceu-lhes que a pequena embarcação tomara outro rumo. Passaram por uma baía de difícil acesso e seguiram para a baía sul, o local onde o Robinson  presumivelmente desembarcara. Aí chegados, tiveram duas surpresas. Primeiro não havia qualquer praia e segundo, à sua frente, a pequena embarcação  deslizava suavemente até ao ancoradouro.

[Chegado a este ponto da história, é preciso seguir de perto o original e pôr o discurso na primeira pessoa. Pessoa inglesa, claro está..]

“Outra grande surpresa foi vermos a embarcação que tínhamos deixado para trás. Eles tinham afinal contornado a ilha pelo outro lado e encontrávamo-nos de novo. A sua tripulação, um grupo de tipos com ar selvagem, semi-nus e bronzeados, tratava de amarrar a vela principal. Ficámos a observar o que se passava.

Sobre o desembarcadouro havia duas pequenas furnas, lado a lado, e dali para o planalto havia uma espécie de escada construída com pedras largas. Os tais homens mal-encarados atarefavam-se a desembarcar barris e a transportarem-nos por essa escada acima, armazenando-os numa pequena gruta por detrás das furnas. Era uma cena digna de um quadro de Salvator Rosa. Aliás, todo aquele cenário sugeria ambiente próprio de piratas ou contrabandistas. E todos nós nos interrogávamos sobre quem seriam estes homens e que significaria tal actividade, misteriosa numa ilha deserta. Actividade esforçada, contudo; percebia-se, pelo esforço, que os barris eram pesados.
Alguém sugeriu que talvez tivéssemos surpreendido novos piratas, no acto de esconder outro imenso tesouro. Isso poupava-nos o esforço de escavar e bastar-nos-ia aliviar aqueles homens malvados do objecto da sua rapina. Ancorámos a pouca distância da embarcação e preparámo-nos para ir a terra.
 Aqueles homens rudes afadigavam-se ainda na descarga dos barris, mas à medida que nos aproximávamos, pararam e puseram-se a observar-nos com grande curiosidade.

«Banditi su una costa rocciosa»
Salvator Rosa [1615-1673]

Mal pusemos pé em terra firme, um homem idoso, muito castanho, vestindo calções e uma camisa esfarrapada que um dia fôra verde mas que agora era mais parda, devido à idade e à sujidade, aproximou-se de nós com ar cordial, e cumprimentou cada um de nós com um enérgico aperto de mão silencioso. Dirigi-me a ele em espanhol, mas ele abanava a cabeça e começou a falar numa língua que reconheci ser um patois português. Apresentou-se como sendo o dono dos barris e capitão da embarcação. Rodeava-o a sua mal-encarada tripulação, ouvindo a nossa conversa com ar grave. Então o velho fez um gesto para o seguirmos, e conduziu-nos a uma das furnas. A mobília era constituída por barris como aqueles que desembarcavam, uma tina grande com uvas pretas e uns garrafões. De entre as pedras da parede apareceu uma caneca e o homem serviu a cada um de nós uma excelente aguardiente.

Entretanto, um dos homens semi-nus trazia para dentro da furna mais um barril. Sem mostrar demasiada curiosidade, perguntei o que continha o barril. O velho mergulhou uma caneca num barril que já estava meio aberto e despejou o conteúdo na minha mão. Não era, como eu esperava, nenhum tesouro de piratas. Era sal grosso.
Explicou-nos então que ele e os seus companheiros eram nativos da Madeira, e que nessa altura do ano costumavam ir às Selvagens salgar o peixe que entretanto pescavam, e que no resto do ano não havia pessoas naquelas ilhas. Acrescentou ainda que as Selvagens eram portuguesas e não espanholas.
Perguntei-lhe se havia água-doce na ilha, e ele disse que sim, que havia uma pequena fonte no monte, e que toda a água que usavam tinha que ser trazida por pequenos carreiros, em baldes que os homens transportavam sobre a cabeça. Depois verificámos que eles o faziam com grande destreza; afinal os madeirenses são óptimos montanheses.

Foi então a vez do velho me fazer perguntas. Queria saber ao que vínhamos, porque não era habitual ver navios como o nosso por aquelas bandas. Respondi-lhe que íamos para Tenerife e que o nosso yacht era de recreio.

- Já uma vez esteve cá um inglês. Pensei que tivessem vindo pela mesma razão.
- Porque veio ele?
- Procurar dinheiro escondido.

A conversa começava a ser interessante, mas eu fiz um ar de surpreendido.

- Há um grande tesouro escondido algures nesta ilha, e os ingleses sabem-no. Aqui há uns anos esteve cá um milorde com um navio maior que o seu, e esteve aí a escavar. Ah, é um grande tesouro, mais de mil libras inglesas, mas ele não o encontrou.
- E onde é que ele escavou?
- Isso não sei. Não estava cá nessa altura.

Era tudo o que o velho parecia saber. Mas tornava-se evidente que o Alerte não era o primeiro navio a vir às Selvagens procurar pelo tesouro depois do Robinson.

Resolvemos então explorar a ilha. Subimos por um trilho que ziguezagueava à beira dos penhascos e que deve ter dado muito trabalho a construir, «a proof in itself that the rare visitors to the island were Portuguese, for these people alone take the trouble to make roads on desert islands».

Subimos ao planalto e vimos uns muros de pedras empilhadas a limitar quadrados de terreno que devem ter sido de cultivos antigos há muito abandonados, decerto por falta de água. Num deles vimos restos de uma vinha. Os pescadores ignoravam completamente a história desses muros. Vimos muitos coelhos, «gulls» e «cormorants». Caçámos uns coelhos e contornámos a ilha toda sem descobrir nenhuma praia. Pedaços de areia, aqui e acolá, mas nada que se parecesse com o grande areal escavado por Robinson oitenta anos antes. Talvez tenha havido grandes mudanças desde então e a areia tenha sido levada pelo mar.

Descemos para as furnas e o velho ofereceu-nos uma garrafa de vinho da Madeira. Comprámos-lhe umas uvas e uma garrafa de aguardiente. Despedimo-nos dos nossos amigos portugueses e rumámos para a Selvagem Pequena, o nosso objectivo. Antes do pôr do sol ainda vimos o barco dos pescadores rumar para a Madeira, deixando 5 ou 6 homens na ilha. Mais tarde verificámos que o ‘monarca’ das Selvagens sabia negociar de forma muito astuta. A aguardiente era uma coisa horrível, nada parecida com a que tínhamos provado quando desembarcámos.

Por causa dos recifes, ficámos a uma distância prudente, mas verificámos que a Selvagem Pequena era muito mais rasteira que a Selvagem Grande. Um pequeno monte cortava a monotonia da paisagem, de um verde ondulante. Algures naquela costa, os amotinados tinham enterrado as arcas do tesouro.

Desembarcámos sem dificuldade com 16 marinheiros. Examinámos as praias e seleccionámos 3 delas, que encaixavam igualmente bem na descrição do espanhol. Não encontrámos habitantes, mas vimos bastantes sinais da presença dos pescadores. Algumas pegadas até eram recentes. E encontrámos uma pequena cabana construída com rochas empilhadas, montes de sal grosso, vestígios de fogueiras, e numa caverna até encontrámos o panelão onde eles preparam a sua comida. Não vimos coelhos e até as aves eram poucas. Não havia fontes de água doce.

Subimos o monte, de origem vulcânica, e imediatamente reparámos nuns cristais pretos muito grandes. Soltámos alguns da rocha e verificámos que eram muito pesados. Imaginámos logo que se tratava de manganés ou outra coisa assim valiosa. E havia milhares de toneladas daquilo na ilha. Engendrámos logo ali o plano de conseguir uma concessão dos portugueses e depois vender a concessão a uma grande companhia e ficarmos duplamente ricos. Mais tarde, em Tenerife, mandámos analisar uma amostra. Era horneblenda vulcânica. Valor comercial zero.

Entretanto escavámos as praias durante 3 dias sem encontrar nada. Nem era preciso escavar muito fundo porque encontrávamos rocha. O sol subtropical tornava-se difícil de suportar. Uma vez os ânimos aumentaram quando alguém encontrou ossos. Seriam os do capitão espanhol? Não, afinal eram ossos de baleia. Alguém sugeriu que a ‘ilha do meio’ pudesse ser o ilhéu de Fora. Também lá fomos escavar mas sem melhor sucesso. Se estivéssemos ali um mês a escavar, nunca conseguiríamos escavar aquela areia toda.”

Entretanto levantava-se um temporal. Recolheram ao Alerte, e, desistindo da empresa, foram-se embora.

 

 

SHACKLETON
Em 1921, o Sr. Luiz Rocha Machado, último proprietário das Selvagens, almoçava descansadamente no Funchal lendo um jornal inglês quando uma notícia lhe despertou a atenção. Nela dizia-se que Shackleton tencionava explorar aquelas ilhas, no regresso da sua viagem ao Pólo Sul. Shackleton era um explorador consagrado que já tinha feito várias expedições à Antártida e que nessa ocasião se preparava para efectuar aquela que seria a derradeira: a do Quest. E tencionava ir lá descobrir um fabuloso tesouro, que um corsário francês ali naufragado no século XVIII escondera em ignorado local. O proprietário telegrafou para Londres, proibindo o inglês de fazer quaisquer buscas, e  nunca mais pensou no caso. Ficou sem resposta.
Um dia chegou ao Funchal, no seu barco armado e equipado para a expedição, o famoso Shackleton.

Machado caiu em si quando o visitante lhe pediu autorização para procurar nos ilhéus o tal tesouro, que seria dividido entre os dois. Aceitou. Iria depois a Inglaterra buscar máquinas perfuradoras, para esventrar os rochedos. É que havia nos arquivos do almirantado inglês, um documento que comprovava a história, contada por um marinheiro sobrevivente do naufrágio do corsário francês.  Um dia depois, Schackleton partia para o Sul, onde morreu. Nunca chegou a ir às Selvagens, mas a história pegou e, hoje em dia, até os Vigilantes da Natureza contam aos visitantes que o Shackleton andou por lá a esburacar as falésias.

Há muito mais histórias de tesouros escondidos nas Selvagens. Há também mais histórias de expedições para os localizar. Umas verdadeiras, outras mais fantasiosas. Eu acho que os potes com o ouro estão mesmo lá, bem escondidos à vista de todos.


O CASO DO FAROL
A intenção de construir um farol nas ilhas Selvagens recua a 1881, numa reunião da Comissão de Faróis e Balizas, na sequência de uma solicitação espanhola. O governo espanhol «solicitava do governo português a sua cooperação para o estabelecimento de um farol de primeira ordem naquela ilha». A Comissão entendeu que esse farol interessaria fundamentalmente à navegação que se dirigisse às Canárias, reconhecia a sua utilidade, mas entendia que Portugal não deveria contribuir naquele momento por estar envolvido num projecto geral de iluminação das costas de Portugal e das ilhas adjacentes que lhe absorvia todas as verbas disponíveis. Na acta dessa reunião consta um ofício do Ministério dos Negócios Estrangeiros espanhol, datado de 23 de Julho de 1881, que diz:

"De los antecedentes que existen en el Ministerio de Estado em Madrid, se deduce claramente que no está determinada si la soberania de la isla pertence a España o a Portugal."

Em Setembro de 1911, o governo português recebeu da «Legação de Espanha» uma nota comunicando que «o seu governo ia montar nas ilhas Selvagens um farol (...) e que deliberara incorporar as Selvagens no arquipélago das Canárias» O governo português protestou e foi acordado não praticar quaisquer actos que pudessem prejudicar a solução amigável da questão.
 

Em 1913, o Almirante Schultz Xavier fez o reconhecimento da Selvagem Grande e no seu relatório recomendou o Pico da Atalaia como a melhor localização para o farol.
Em documento de 1929, o Contra-almirante Gago Coutinho esclarece que as ilhas sempre foram consideradas dependência da Madeira e, portanto, de Portugal.
Em 1932 o governo português legislou sobre as ilhas e considerou-as em regime de reserva de caça a favor do respectivo proprietário.
Em 1938, a Missão Hidrográfica das Ilhas Adjacentes, procedeu ao levantamento das Ilhas Selvagens, construindo diversos marcos geodésicos.

Em 15 de Fevereiro de 1938 foi emitido um parecer pela Comissão Permanente de Direito Marítimo Internacional, atestando a nacionalidade portuguesa das Selvagens.

Em Novembro de 1958 a Direcção de Faróis afirmava que aquelas ilhas eram um perigo para a navegação marítima, sendo portanto um «dever internacional» construir faróis onde eles fossem julgados necessários. É reiterado o Pico da Atalaia como o local mais adequado, estimando-se o custo total em 2500 contos. Nesse sentido foram sujeitas a servidão militar diversas áreas com centro nos vértices geodésicos das Selvagens.
Em 18 de Novembro de 1971 o navio "Cerno" naufraga junto à Selvagem Pequena.
Em 12 de Junho de 1972 o Ministro da Marinha pede a colaboração do Ministério das Finanças para a colocação de marcos indicativos de propriedade do Estado. E pede um novo estudo sobre a implantação de um farol. Esse estudo ficou pronto em Janeiro de 1973 e recomendava um farol automático de alcance mínimo de 18 milhas no Pico da Atalaia.
Em Dezembro de 1973, naufragou nas Selvagens o navio "Splendid Breeze" e a 30 de Outubro de 1976 o iate "Demeter".

Em 22 de Novembro de 1976 o Chefe do Estado-Maior da armada decide a construção de um farol não vigiado, que fica finalmente pronto em 1977. Nessa mesma data foi também construída a casa abrigo para os vigilantes do Parque Natural.
Actualmente há dois faróis semi automáticos, um na Selvagem Grande e outro na Selvagem Pequena. A equipa de faroleiros encarregue da sua manutenção vai às Selvagens de quinze em quinze dias ou de três em três semanas, aproveitando o  revezamento dos Vigilantes.

CONTENDA DE MOURA - 4
Os episódios dos sobrevoos poderiam inserir-se no tal acordo de 1985 entre os Estados-Maiores peninsulares? Teria Portugal delegado a Espanha funções de patrulhamento daquela área, e então os espanhóis estariam meramente a fazer o seu trabalho? Vejamos como as coisas se passam em termos de controlo do tráfego aéreo.

A RIV - Região de Informação de Voo, é uma região cujo espaço aéreo é gerido por um determinado centro de controlo. Cabe-lhe garantir, de acordo com a regulamentação internacional e nas melhores condições de segurança, a gestão do tráfego aéreo e o controlo das rotas na totalidade da região, bem como o controlo de aproximação aos aeroportos, através de radar e de comunicações por rádio. Na imagem ao lado, verifica-se que o espaço aéreo da Madeira é controlado pela RIV de Lisboa, enquanto o das Selvagens é controlado pela RIV das Canárias. Isto, antes de mais, traduz uma fragilidade portuguesa, por falta de meios da RAM para efectuar um controlo aéreo efectivo da sua Região, à qual as Selvagens pertencem. O radar de apoio a construir no Porto Santo carece de verba e o da Madeira, a construir no Pico do Areeiro, esbarra com uma dificuldade: esse pico é o local único de nidificação da Freira da Madeira, ave em iminência de extinção. Daqui resulta a constatação óbvia: qualquer sobrevoo das Selvagens é detectado apenas por radares espanhóis!

Provavelmente devido a esta fragilidade é que foi feito o acordo entre os Estados-Maiores dos dois países, cabendo à Espanha a vigilância do espaço aéreo da ZEE daquele subarquipélago. O que não retira nada à nossa soberania nem ao inerente pedido prévio por parte dos espanhóis, caso queiram sobrevoar as Selvagens. Segundo ainda o nº2 do artº 2º da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, estabelece-se que a soberania do Estado costeiro «estende-se ao espaço aéreo sobre o Mar Territorial, assim como ao leito e subsolo desse Mar». Portanto, poderiam fazer vigilância na ZEE, mas não no limite das 12 milhas, e muito menos sobre as próprias ilhas, sem autorização expressa.

 

A Armada e a Força Aérea Portuguesa não têm também meios eficazes de vigilância e fiscalização. Os navios-patrulha e corvetas há muito que chegaram ao fim do seu prazo de vida. O que é grave, não apenas por causa das Selvagens mas por razões também aduaneiras, de detecção e combate à poluição, de busca e salvamento, de pesca clandestina, etc.  À região da Madeira estão adstritos um Aviocar, para fiscalização, um helicóptero Puma e um navio patrulha da classe Cacine, o que é de uma pobreza confrangedora e torna o arquipélago permeável a abusos.

A toda esta questão não é estranho o novo quadro da estrutura operacional da Nato, na medida em o fim do comando de Oeiras do RHQ Southlant ou diminuição do seu estatuto poderia retirar a nossa individualização face a Espanha.

Não que não possamos ou queiramos colaborar com o nosso simpático e manifestamente inofensivo vizinho, nada abusador. A questão é afirmar internacionalmente a nossa realidade geopolítica da qual resultam benefícios para toda a Aliança.

Na Cimeira de Praga, em Novembro de 2002, ficaram definidos os locais de dois dos novos comandos operacionais. A localização do terceiro saber-se-á em Junho de 2003.

Seria pertinente e interessante -acho- enquadrar a questão das Selvagens dentro de uma perspectiva histórica do relacionamento entre Portugal e Espanha, em especial nos sécs. XIX e XX. Contudo, mesmo muito resumida, seria matéria demasiado extensa para integrar neste artigo. 


CONTENDA DE MOURA - 5
A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar foi assinada em Montego Bay, na Jamaica, em 10 de Dezembro de 1982 por 119 Estados, entre os quais Portugal. Até à data limite de 9 de Dezembro de 1984, assinaram aquele documento mais outros 40 Estados e Organizações Internacionais, entre os quais a Espanha e a CEE. A Convenção entrou internacionalmente em vigor em 16 de Novembro de 1994. Na Convenção de 82 ficou estabelecido o princípio do Mar Territorial, com 12 milhas de extensão, e o conceito de ZEE - Zona Económica Exclusiva, com 200 milhas.

O Mar Territorial ficou definido como um prolongamento da parte terrestre, onde se podem exercer todos os atributos da soberania do Estado costeiro. A ZEE é uma porção de águas internacionais que por convenção fica adstrita ao Estado costeiro para meros efeitos de exploração dos seus recursos. Pode-se fiscalizar a actividade económica não autorizada, apreender redes de pesca, embarcações, fixar coimas ou sanções administrativas, bem como iniciativas de natureza preventiva em matéria ambiental. Há ainda outros conceitos relacionados, como o de Alto Mar, Zona Contígua, Plataforma Continental, Águas Interiores e Área, que não cabe aqui desenvolver.
Juntamente com o conceito de Mar Territorial, é preciso ter em conta algo mais que ficou estipulado na Convenção de 1982: o de Estados mistos  (os Estados mistos são aqueles que têm uma parte continental e outra insular, o caso de Portugal e Espanha). Estes Estados mistos, nas suas ilhas não podem traçar um perímetro arquipelágico no seu Mar Territorial; as 12 milhas são consideradas ilha a ilha. Contudo, Estados arquipelágicos como a Indonésia ou as Filipinas já o podem fazer.
Quanto às ZEE's, já é consentido aos Estados mistos considerar um perímetro arquipelágico.


A ZEE portuguesa


Detalhe com a ZEE relativa às Selvagens

Em caso de delimitação de águas (Territoriais ou ZEE) entre dois Estados, adjacentes ou fronteiros, na Convenção de Montego Bay colocaram-se em oposição 2 princípios: o princípio da equidistância e o princípio da equidade. Vingou o princípio da solução equitativa, "derivada da articulação da equidistância com as circunstâncias especiais". Ou seja: a solução equitativa condiciona a aplicação da equidistância mas não a exclui. Na prática pode até ser útil partir da linha mediana para alcançar uma solução equitativa. Mas que circunstâncias especiais são essas?


São circunstâncias não tipificadas, que um dos Estados entende como relevantes e que contrariam a aplicação rígida do princípio da equidistância. Exemplo: se a fronteira for um rio, pela linha mediana um dos países poderia ficar com o canal navegável e o outro não.


A equidade é portanto uma forma de evitar cortes cegos. Mas não há entidade que a imponha; aquilo que a Convenção determina é que os Estados devem, entre si, procurar uma solução equitativa. E enquanto isso não acontecer deve prevalecer provisoriamente o princípio da equidistância. E é assim que as coisas estão na delimitação entre Portugal e Espanha: não há acordo formal e portanto vigora o princípio da equidistância.

Mas a equidistância entre o quê? Entre as Selvagens e as Canárias, evidentemente. Ora os nossos amigos espanhóis, como já não podiam reclamar a soberania das Selvagens, lembraram-se de uma coisa engraçada: só as ilhas têm ZEE; os rochedos não. Portanto, invocaram que as Selvagens eram meros rochedos, logo sem ZEE, e consequentemente a mediana das ZEE's  deveria ser traçada entre a Madeira e as Canárias, de caminho deixando as Selvagens encravadas dentro dessa nova ZEE das Canárias. Ou seja, toda a zona assinalada com Y (excepto as 12 milhas de Mar Territorial de cada uma das Selvagens) reverteria para as Canárias. Entaladas por Marrocos e pelo Sahara Ocidental, as Canárias só se podem estender à vontade para Oeste. Daí a cobiça relativamente àquelas águas.
Por outro lado, se por qualquer razão tivessem conseguido roubar-nos a soberania das Ilhas Selvagens, então a sua ZEE abarcaria também a região assinalada com X.


Em todo o caso, relativamente à tese do rochedo é preciso referir o seguinte: o nº 3 do artº 121 da Convenção do Direito do Mar diz o seguinte: " Os rochedos que, por si próprios, não se prestam à habitação humana ou a vida económica não devem ter Zona Económica Exclusiva (...)". Ora, como vimos acima, as Selvagens são habitadas permanentemente e têm uma casa que até paga contribuição autárquica na freguesia da Sé, no Funchal. Quanto à vida económica, apesar de não existir, as ilhas prestam-se a isso como já se prestaram no passado. E por fim, vejam-se as palavras do perito do Conselho Europeu, Sr. Francis Roux, a este respeito, no «Público» de 26/3/97 dizendo que «defende que as Selvagens permaneçam com o estatuto de ilha em vez de serem classificadas como rochedos». É que as ilhas foram transformadas em reserva natural, estatuto este incompatível com a exploração dos seus recursos e, consequentemente, com a sua «habitação».


A questão dos «rochedos» remonta a bastante tempo antes da Convenção. Em 1972 foram apreendidas duas embarcações de pesca espanholas («San Pedro de Abona» e «Aries» a pescar na Baía das Cagarras. Em 1976 foi o «Ecce Homo Divino» que foi apreendido. Em 1978 foram apresados vários barcos canarinos no flanco sul da ZEE da Madeira que deram origem a um litígio entre os dois governos regionais argumentando-se com a questão da não-habitação das ilhas Selvagens. Em 1981, a embarcação de pesca "Marijean", de Lanzarote, foi apreendida nas águas das Selvagens com 600 Kg de peixe a bordo. 


Imaginativos, os espanhóis passam então a defender que, dada a grande distância, existe uma descontinuidade entre o arquipélago da Madeira e o das Selvagens, logo, em vez de uma só  ZEE da RAM, deveriam haver ZEE's parcelares. O que faria aumentar a ZEE das Canárias em tenaz ao redor das Selvagens. Na realidade essa descontinuidade é meramente geográfica, porque historicamente os dois arquipélagos sempre estiveram ligados através das actividades económicas.


Esta questão poderá um dia terminar se Portugal e Espanha delimitarem as suas ZEE's através de um acordo bilateral. Portugal tradicionalmente segue o princípio da equidistância, mas não seria descabido que  entrassem em cena circunstâncias especiais, com vista a uma solução equitativa. Simplesmente a Espanha isso não convém, porque seria criar um precedente que comprometeria os seus problemas no Mediterrâneo, com o Reino Unido a propósito de Gibraltar, e com Marrocos devido aos enclaves de Ceuta e Melilha e às ilhas disseminadas junto à costa marroquina: Peñon de Vélez de la Gomera, Alhucemas, Alboran, Chanfrinas e Peregil. Caso a Espanha invocasse a equidade com Portugal, a propósito das Selvagens, isso seria um precedente incomodativo na sua posição negocial para com Marrocos, mais orientada para o princípio da equidistância.

Há especialmente que ter em conta um diferendo importante na definição do Mar Territorial e da Plataforma Continental entre as Canárias e Marrocos, devido às recentes explorações de petróleo que a Repsol anda por lá a fazer (cujos resultados se saberão daqui a 3 ou 4 anos), apesar dos veementes protestos marroquinos.
Consequentemente, aquilo que a Espanha pretende é utilizar o critério que mais lhe convenha consoante os casos (como também faz com Olivença ou com Gibraltar). Cabe-nos a nós não andar a dormir.


O último episódio sobre as Selvagens, à hora em que fecho este artigo, é o facto destas ilhas  constarem no mapa da União Europeia, no seu site oficial, como pertencentes às Canárias. Que malandrice, hem? Quem terá sido el responsável?

 


As Selvagens, vistas pela Nasa.

 

Em 1996, aquando da ratificação da Convenção, o MNE teve a inabilidade de, numa nota apensa para efeitos de «statement», se ter referido às Selvagens como rochedos. Segundo se percebeu na altura, o MNE fê-lo no seguimento de pressões espanholas para que a ratificação da Convenção passasse pelo reconhecimento dos estatuto de rochedo às Selvagens. O Ministério da Defesa interveio a tempo e travou a coisa. Segundo este Ministério, declarar as Selvagens como rochedo seria o mesmo que entregar as ilhas a Espanha.

O assunto veio para os jornais e rapidamente foi abafado.Volta e meia a FAMA agitava o fantasma dos rochedos na sua retórica anti-continente, para fazer o frete ao patrão. O CDS-M mostrava-se muito preocupado com a falta de meios militares.

 

Em Abril de 2002, o português Fernando Maia Pimentel foi eleito para integrar a Comissão dos Limites das Plataformas Continentais das Nações Unidas. É um dos 4 europeus que integram a dita Comissão.

 

Constituição da República Portuguesa
Artigo 5.º
(Território)

1. Portugal abrange o território historicamente definido no continente europeu e os arquipélagos dos Açores e da Madeira.

2. A lei define a extensão e o limite das águas territoriais, a zona económica exclusiva e os direitos de Portugal aos fundos marinhos contíguos.

3. O Estado não aliena qualquer parte do território português ou dos direitos de soberania que sobre ele exerce, sem prejuízo da rectificação de fronteiras.

 

ESTATUTO POLÍTICO-ADMINISTRATIVO DA REGIÃO AUTÓNOMA DA MADEIRA
(...)
Artigo 3.º
Território


1 - O arquipélago da Madeira é composto pelas ilhas da Madeira, do Porto Santo, Desertas, Selvagens e seus ilhéus.
2 - A Região Autónoma da Madeira abrange ainda o mar circundante e seus fundos, designadamente as águas territoriais e a zona económica exclusiva, nos termos da lei.

 


Agradecimentos: 
Paula Martins;
António Martins;
Paulo Salteiro;
Francisco Castillo.



João Firmino
Março 2003
© Insónias Oníricas

C O M E N T A