SOBRE  NOMES

 

De vez em quando dá-me para matutar nos nomes. Em especial naqueles que nos são mais familiares, por (estranhamente, digo eu) despertarem pouco a curiosidade geral. Sobre nomes, topónimos e étimos, aquilo que vos proponho é no fundo um simples passeio geográfico; um mero relato de viagem.

Omiti as dúvidas de partida. Partilho antes as respostas, à chegada. Aquelas que consegui obter, sempre provisórias. 

 

Europa  «Quanto à Europa, não parece que se saiba de onde tirou ela o seu nome nem quem lho deu».  (Heródoto, séc. V a.C.)  

1-O primeiro autor que menciona o nome de Europa, é o poeta alexandrino Hesíodo. Agenor, rei da Fenícia, filho de Poseidon e da oceânide Líbia, casou-se com Telefassa e desta união nasceram 4 filhos e uma filha: Europa, muito bela, de pele branca e aveludada. Uma noite, em Tiro, no palácio do seu pai, Europa teve um sonho: duas terras, que tinham o aspecto de duas mulheres, discutiam a seu respeito. Uma era a «terra da Ásia» e a outra era a «terra de defronte». A primeira queria protegê-la e conservá-la consigo; a segunda, obedecendo à vontade de Zeus, pretendia levá-la para lá das ondas. A princesa acordou intrigada, mas retomou as suas actividades de princesa indo com as amigas colher flores à beira-mar. Foi então que aí apareceu um touro branco, de aspecto imponente mas meigo, que a convidou a subir-lhe para o dorso. A princesa hesitou, mas acabou por subir. Nesse momento o touro levantou voo e fugiu com ela para o mar. No caminho, ele revelou que era Zeus e que a raptara porque se tinha apaixonado por ela. (Tomou a forma de touro para evitar os ciúmes de Hera). 

O voo taurino terminou em Creta, onde, passados tempos, Europa foi «mãe de nobres filhos», entre os quais Minos, que viria a reinar em Creta.

Mas entretanto Agenor, preocupado com o desaparecimento da filha, mandou os outros filhos em sua busca, e estes onde paravam iam fundando colónias. Tebas foi uma delas.

2- Uma outra tradição faz de Europa uma das oceânides, filhas de Oceano e de Tétis, ou ainda aquela que se entregou a Poseidon e foi mãe de Eufénio, um dos argonautas companheiro de Jasão.

3- A etimologia não ajuda nada. Homero designa Zeus por Europé (aquele que vê ao longe); Euro seria o nome do vento leste para os antigos gregos e é com pouca segurança que se atribui ao nome Europa uma origem pré-helénica, opondo um hirib (Europa) que significa «poente», a um asu (Ásia), que significa «oriente»; Europa viria do acádico «erebu» também com sentido de poente.

Estas histórias evocam um tempo já esquecido, em que a Europa era percebida como um mundo novo a desbravar e um espaço que se ia individualizando em relação à Ásia.

África -  A origem da palavra África também não é clara. Os gregos usavam o termo Líbia e os romanos utilizavam a palavra África. Tanto num caso como noutro, referiam-se apenas à área geográfica que corresponde hoje, grosso modo, a Marrocos,  Tunísia,  Argélia e Líbia, área essa que diferenciavam claramente do Egipto e da Etiópia. Existem numerosas conjecturas sobre a origem do nome.

1- Há quem defenda a origem europeia do nome. Uns dizem que vem do grego «aphriké» (sem frio). Não explicam como conciliar isso com o nome Líbia usado pelos gregos, nem com o facto de estes designarem os negros como etíopes «Aithiops» (aspecto queimado). Quanto aos romanos, «Africus» seria o nome de um dos doze ventos mitológicos, neste caso o vento sudoeste, ou ainda o termo latino «Aprica» que significa ‘ensolarado’ que estariam na origem da designação do continente. Certo é que os romanos usavam já o termo Africa.

2- Há também a explicação da origem berbere. De facto, no tempo dos romanos a população do norte de África era constituída por 3 grupos principais: as tribos berberes indígenas, os antigos cartagineses de origem fenícia e os colonos romanos. Assim, África seria uma adaptação romana do nome de uma dessas tribos berberes, os «Avringa» ou «Aourigha».

3- Também muito difundida, é a teoria da origem árabe. Segundo esta hipótese, África viria do árabe «Afrigii» ou «Afridi» ou ainda «Afira» com o significado de ‘empoeirado’. Quando confrontados com o facto da presença romana anteceder vários séculos a invasão árabe, os defensores desta hipótese argumentam fragilmente que a língua berbere e o árabe têm um tronco comum, explicação esta que repõe novamente nos berberes a origem do nome. O mais provável é que os árabes tenham traduzido o nome romano.

4- O pitoresco avoluma-se quando se consideram explicações mais avulsas como por exemplo que África poderia derivar do reino bíblico de Ofir; que poderia vir do fenício «Apikt»; ou do termo também fenício «Pharikia» que significa ‘terra dos frutos’.

Ásia – Também aqui reina a confusão, remetendo para origens ainda mais remotas que nos casos precedentes, se bem que com uma quase unanimidade quanto ao significado.

1- A hipótese que propõe a origem mais longínqua, tanto no espaço como no tempo, é aquela que faz derivar a palavra Ásia do sânscrito «ushas», que designaria o ‘país da aurora’.

2- Depois temos as hipóteses grosso modo mesopotâmicas, acádicas/assírias e hititas, que propõem respectivamente «asu» e «assuwa», ambas com o significado de ‘sol nascente’

3- Já mais próximas, temos a palavra egípcia «Iasia» e o termo semita «esch», ambas também significando os lugares onde rompia o dia.

4- Nos tempos gregos, designava-se por Asia a costa norte da Anatólia até Trebizonda; aquelas terras que ficavam além do mar de Marmara e do Bósforo.

5- Os romanos adoptaram-lhe o nome, estendendo-o a toda a Anatólia sob a designação de Asia Menor, por oposição a tudo o que ficava mais além, vagamente conhecido por Asia Maior.

América – Sobre a América não há dúvidas. Vem do nome do navegador florentino Amerigo Vespucci (Américo Vespúcio), que viajou para aquele  continente em 1499, seguindo a rota de Colombo, e que foi o primeiro a dar-se conta que estava perante um novo continente e não no litoral asiático como Colombo julgara. As suas descrições, nomeadamente «Mundus Novus» e «Quattuor Americi navigationes» foram posteriormente publicadas pelo alemão Waldseemüller, que na sua «Cosmographiae introductio» chama ao novo continente América. Dizem uns que por ignorar a viagem de Colombo; outros porque se deixou iludir pelo nome «Quattuor Americi navigationes»; outros finalmente que propõem que tenha sido em homenagem ao Américo. Certo é que foi por pouco que o novo mundo não se passou a chamar Vespúcia.

Australia  O nome Australia, derivado do latim «terra australis incognita» foi usado várias vezes desde o séc XVII para descrever uma massa indeterminada de terra. O primeiro a chamar Australia à ilha-continente foi Matthew Flinders, no seu atlas ‘Voyage to Terra Australis’ publicado em 1814.

 

Oceania –  Não consegui apurar quem lhe deu o nome, que vem, obviamente, de Oceano.

Oceano – Filho de Urano e de Gaia, este titã é a personificação divina da água. Circunda a terra como um imenso rio onde tudo se cria e tudo vem morrer. Tétis, a sua esposa, concebeu uma multidão de filhas, as Oceânides, entre as quais Europa.

Pacífico – O primeiro europeu a avistá-lo foi o espanhol Vasco Balboa, que, em 1513, atravessou o istmo do Panamá e deparou com as águas do oceano a que chamou Mar do Sul. Quem lhe deu o nome de Pacífico foi Fernão de Magalhães, em 1520, quando se lhe deparou um oceano de águas calmas depois da travessia do estreito que viria a ter o seu nome.

Índico – Não sei quem lhe deu o nome, mas não é difícil imaginar que é por banhar o subcontinente indiano.

Árctico – Deve o seu nome ao facto da estrela polar pertencer à constelação da Ursa Menor, sendo que a palavra «arctos» em grego, significa urso. Por oposição geográfica, no sul chamou-se Antárctico.

Atlântico – O seu nome vem de Atlas. Filho do titã Jápeto e da oceânide Clímene, (e portanto, simultaneamente neto e sobrinho de Oceano) este gigante pertence à primeira geração de deuses. Combateu Zeus e, como punição, foi condenado a carregar o mundo às costas.

Consta que um dia Perseu lhe pediu hospitalidade, mas foi-lhe recusada. Irritado, Perseu apresentou-lhe a cabeça da Medusa, e o gigante, petrificado, foi transformado numa montanha chamada «Atlas», que corresponde à cordilheira de Marrocos.

 De facto é no séc. XVI, altura em que se usava ainda o nome «Mar Ocidental», que surge o nome de ‘Oceano Atlântico’. O seu autor foi o flamengo Gerard de Kremer, mais conhecido por Gerardus Mercator, porque naquela época se latinizavam os nomes.

No seu mapa mundi de 1569, Mercator utiliza pela primeira vez o nome de  Oceano Atlântico, talvez por ser fronteiro à cordilheira marroquina, nome esse que seria sempre adoptado daí em diante.

Mercator foi um dos pais da cartografia, e o inventor da projecção cilíndrica que é ainda a mais utilizada hoje em dia, e à qual foi dado precisamente o nome de Projecção de Mercator.

 

 

  Quando morreu, Mercator possuía já um imenso conjunto de mapas, com detalhes de todas as regiões conhecidas. Coube ao seu filho, Rumoldo, a publicação em 1585 desse conjunto de mapas sob o nome de Atlas Sive Cosmographicae Meditiones de Fabrica Mundi et Fabricati Figura (Atlas ou meditações cosmográficas sobre a criação do mundo e a aparência da criação). A palavra Atlas foi escolhida porque, tal como o titã, também naquele livro se carregava o mundo.

Agosto 2002

C O M E N T A