BANDEIRA MUNICIPAL E BRASÃO D'ARMAS: «De ouro, com um barco exteriormente de negro realçado de prata e interiormente de prata realçado de negro, mastreado e encordoado de negro, com uma vela ferrada de cinco bolsas de prata. A popa e a proa rematadas por dois corvos de negro, afrontados. Leme de negro realçado de prata. O barco assente num mar de sete faixas ondadas, quatro de verde e três de prata. Coroa mural de ouro de cinco torres. Colar da Torre e Espada. Listel branco com os dizeres "Mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa", de negro.» Esta é a descrição oficial, desde 1940.
 A figura central do brasão, com os dois corvos sobre a nau, foi lá mandada colocar por D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, depois da tomada de Lisboa, cidade que dedicou a S. Vicente. Qual o significado daquela imagem?
 

 

A lenda concentra quase um milénio de história, evocando o tempo dos alvores da implantação do cristianismo na Península Ibérica sob ocupação romana, passando pelos 450 anos de ocupação árabe, para terminar na época da  Reconquista cristã. Para a contar, sigo de perto a «Chronica do muito alto e esclarecido príncipe D. Affonso Anriques, primeiro Rey de Portugal», de Duarte Galvão (1435-1517).

 

Vicente nasceu em Huesca, nos Pirinéus (que ora hee no Reyno de Araguaõ). Ainda novo, foi enviado para Espanha pelo Papa, tornando-se acólito de Valério, bispo de Valência, vindo a distinguir-se pelos seus dotes de orador.
Passava-se isto nos tempos do Imperador Diocleciano (284-305 d.C.), famoso também pelas perseguições que moveu aos cristãos. Neste caso, o seu agente para a Hispânia foi Daciano, que dada a notoriedade de Vicente o «fez trazer ante si», exigindo explicações pela pregação subversiva que fazia e exigindo a sua renúncia à fé cristã. Ora o Vicente não se deixou intimidar. Nunca renunciou à sua fé e ainda aproveitou para louvar Cristo com grande eloquência e fervor, perante o olhar atónito do romano. Daciano mandou torturá-lo repetidas vezes, mas Vicente acabou por morrer sem renunciar à sua religião. O romano ficou furioso: «Se não o venci em vida, morto o vencerei e desfarei», e mandou que o seu corpo fosse deitado num campo, à mercê dos animais selvagens. É nesta altura que entra em cena um novo protagonista: um corvo.

O corpo do Vicente não chegou a ser profanado, porque um corvo o defendeu, impedindo as feras de se aproximarem. Isto foi relatado a Daciano que, furioso, mandou então que atassem o cadáver a uma mó e o jogassem no mar, para que lá se desfizesse. E assim se fez. Mas, milagrosamente, o corpo do Vicente voltou de novo a terra ainda antes do barco que o levara para o mar. Foi então recolhido por cristãos que lhe deram sepultura cristã, seguindo-se depois vários milagres não especificados.

 

O culto de S. Vicente espalhou-se então pela Europa, em especial na península (havia um templo em Braga já em 618 d.C.), e aparentemente ganhou especial devoção durante a ocupação muçulmana, por parte das populações moçárabes. Voltando à crónica, ficamos a saber que os conquistadores mouros não achavam templo cristão que não destruíssem (ou convertessem em mesquita), ou ossos de mártires que não queimassem. Assim, na iminência da sua chegada a Valência, os cristãos que guardavam a sepultura de S. Vicente resolveram fugir com as relíquias do santo, com os objectivo de as pôr a salvo. E é aqui que surge nesta história o Cabo de S. Vicente, no Algarve. Mesmo à beira da escarpa ficam as ruínas de uma capela que foi dedicada a Santa Catarina e, do lado oposto, outras ruínas, as da antiquíssima Igreja do Corvo dedicado a S. Vicente, e onde teriam sido depositados os restos mortais de S. Vicente. Já em meados do século XII, Muhammad al-Idrisi e Abu Hamid al-Andalusi referem-se-lhe detalhadamente num "promontório que se mete pelo Mar", "sobre a costa do mar das Trevas", opinando o primeiro autor que a sua construção havia sido já anterior à dominação islâmica.

 


Representação de S. Vicente, com narrativa visual dos episódios principais.

 

Mas, seguindo de novo a crónica, ficamos a saber que os homens que fugiram de Valência com os restos mortais do santo «aprouve a N. Senhor de os guiar àquele cabo chamado agora de S. Vicente para o seu corpo ali ser enterrado e escondido, ficando aqueles homens bons continuamente com ele, até que ali chegou um cavaleiro mouro a que chamavam Albofacem, natural do reino de Fez e que morava naquela terra dos Algarves, e encontrando os os homens guardando o corpo os matou, deixando o corpo
Afonso Henriques, depois da conquista de Lisboa e de estabilizada a fronteira na linha do rio Tejo, enviou uns homens numa barca ao Algarve, ainda território inimigo, resgatar as relíquias do santo. Não era a primeira vez que o fazia. Já o tentara ele próprio anos antes, depois da tomada de Leiria, mas sem as ter encontrado. Mas a segunda tentativa foi mais frutífera, visto que «fizeram uma barca e foram-se lá sem nenhum impedimento, desembarcaram e postos em oração pediram muito devotamente a Deus que lhes mostrasse onde jazia o corpo daquele glorioso mártir. E começando a escavar aprouve a N. Senhor que o achassem (...) pondo-o dentro da barca» e voltaram a Lisboa sem qualquer sobressalto visto que o próprio mar se acalmava à sua passagem. Chegado o féretro a Lisboa, «ElRey D. Affonso Anriques chorou com prazer, louvando muito ao Senhor Deos», ordenando que o sepultassem na Sé.
Ocorre ainda que durante a viagem do Algarve para Lisboa, a barca que trazia os restos mortais do santo foi acompanhada por um corvo, imediatamente relacionado com o corvo que o protegera ainda no tempo dos romanos. Também na Sé o corvo continuou a velar o santo e «ali foi visto por muitos tempos».

O brasão tem dois corvos. Se um só acompanhou Vicente na sua última viagem, donde virá o outro? A meu ver trata-se do corvo de Valência. Certo é que popularmente passou a constar que dois corvos acompanharam a barca. O que não faz diferença nenhuma, porque sendo ambas lendas, nenhuma é mais verdadeira que a outra. Até porque há várias terras a disputar o corpo de S.Vicente: há relíquias do santo em Castres, Cremona e Bari, pelo menos.

Hoje, São Vicente é padroeiro secundário de Lisboa, porque entretanto apareceu o casamenteiro do Santo António.

INVOCAÇÃO A LISBOA

... ... ...

E tu, mais bela, entre as belas,

Cidade das caravelas,

Repete a antiga viagem,

Solta a amarra, larga as velas,

E que as aves da carnagem,

Os corvos, de pé, à proa,

Ouvindo o mar que ressoa,

Tenham os olhos em brasas,

Crocitem, batam as asas,

Na tua nau, ó Lisboa!

... ... ...

Jaime Cortesão

in Lisboa com Seus Poetas, Lisboa, D. Quixote, 2000, p. 279.

 


 

Em Lisboa, há certos candeeiros que exibem ainda a barca vicentina com os corvos. É inclusive possível seguir um itinerário estabelecido pelos candeeiros, que passa totalmente despercebido até aos lisboetas, e que tem vagamente o formato de um V. Partindo da Baixa Pombalina, seguindo o seu braço esquerdo com os Restauradores como única descontinuidade, passamos pela Avenida da Liberdade, Av. F.P.Melo, Av. da República, terminando no fim do Campo Grande. Seguindo o braço direito, ignorando a descontinuidade do Martim Moniz, subimos a Rua da Palma, Av. Almirante Reis até ao Areeiro. Grosso modo, os candeeiros encimados com a caravela estão presentes nas avenidas, enquanto os candeeiros com a caravela no seu braço se encontram na quadrícula definida pela Rua do Ouro, Rua da Prata, Rossio e Praça da Figueira.

 

Calçada junto à Rua de Entrecampos

Caravela com corvos, símbolo da Cidade de Lisboa
(
Fundação Mário Soares)


 

Na foto da esquerda, a entrada para a Igreja de S. Vicente de Fora, em Lisboa. Ao centro alto, um dos meus recantos  preferidos na cidade: os Telheiros de S. Vicente.


Telheiros de S. Vicente


Sobre a polémica dos painéis de S. Vicente de Fora, recorro ao outsourcing, aqui.


 

Rua dos Corvos, em Alfama, com gato no telhado.

Sede do Sport Benfica Corvense, na Rua dos Corvos. Já lá comi um óptimo caldo verde e bebi um duvidoso "pascoal".

Cartaz de Janeiro de 2004 a anunciar a celebração
 dos 1700 do martírio de S. Vicente


 

Na presidência de João Soares começou a aparecer um novo símbolo, mais 'moderno', embora sem carácter oficial. Lá continua, embora estilizada, a antiga viagem vicentina com a nau e os corvos.

Com a presidência de Pedro Santana Lopes o símbolo voltou a ser alterado, mas desta vez para versão minimalista, ironicamente adequada caso o objectivo fosse espelhar a pobreza cultural dos seus autores. Diz a lenda que quando recordaram a Pedro Santana Lopes a simbologia vicentina, ele terá dito com boçalidade: «Que se LiXe», inspirando assim o novo logotipo.


 

A data de 22 Janeiro deve ter sido central nos tempos do martírio de S. Vicente, porque é o dia que a igreja lhe dedica.

Na época dos descobrimentos recorria-se ao calendário religioso para baptizar o que se ia descobrindo. Por isso, sabendo que Diogo Afonso descobriu a ilha de S. Vicente, em Cabo Verde, em 1462, não é difícil deduzir em que dia foi. O mesmo aconteceu com Gaspar Lemos, aportado a S. Vicente, no Brasil, em 22 de Janeiro de 1502.


 

"Lisboa em Pessoa", ilustração em azulejo dos monumentos e zonas típicas de Lisboa, onde a figura de Fernando Pessoa está sempre presente e associada a alguns mitos, entre os quais o do transporte de S. Vicente para Lisboa. Da autoria do alemão Konstantino Richter,  foi capa oficial da revista de abertura da participação da Alemanha na Expo 98.

Fevereiro 2004

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