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| BANDEIRA MUNICIPAL E BRASÃO D'ARMAS: «De ouro, com um barco exteriormente de negro realçado de prata e interiormente de prata realçado de negro, mastreado e encordoado de negro, com uma vela ferrada de cinco bolsas de prata. A popa e a proa rematadas por dois corvos de negro, afrontados. Leme de negro realçado de prata. O barco assente num mar de sete faixas ondadas, quatro de verde e três de prata. Coroa mural de ouro de cinco torres. Colar da Torre e Espada. Listel branco com os dizeres "Mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa", de negro.» Esta é a descrição oficial, desde 1940. |
| A figura central do brasão, com os dois corvos sobre a nau, foi lá mandada colocar por D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, depois da tomada de Lisboa, cidade que dedicou a S. Vicente. Qual o significado daquela imagem? |
| Vicente nasceu em Huesca, nos
Pirinéus (que ora hee no Reyno de
Araguaõ). Ainda novo, foi enviado
para Espanha pelo Papa, tornando-se acólito de Valério, bispo de
Valência, vindo a distinguir-se pelos seus dotes de orador. Passava-se isto nos tempos do Imperador Diocleciano (284-305 d.C.), famoso também pelas perseguições que moveu aos cristãos. Neste caso, o seu agente para a Hispânia foi Daciano, que dada a notoriedade de Vicente o «fez trazer ante si», exigindo explicações pela pregação subversiva que fazia e exigindo a sua renúncia à fé cristã. Ora o Vicente não se deixou intimidar. Nunca renunciou à sua fé e ainda aproveitou para louvar Cristo com grande eloquência e fervor, perante o olhar atónito do romano. Daciano mandou torturá-lo repetidas vezes, mas Vicente acabou por morrer sem renunciar à sua religião. O romano ficou furioso: «Se não o venci em vida, morto o vencerei e desfarei», e mandou que o seu corpo fosse deitado num campo, à mercê dos animais selvagens. É nesta altura que entra em cena um novo protagonista: um corvo. O corpo do Vicente não chegou a ser profanado, porque um corvo o defendeu, impedindo as feras de se aproximarem. Isto foi relatado a Daciano que, furioso, mandou então que atassem o cadáver a uma mó e o jogassem no mar, para que lá se desfizesse. E assim se fez. Mas, milagrosamente, o corpo do Vicente voltou de novo a terra ainda antes do barco que o levara para o mar. Foi então recolhido por cristãos que lhe deram sepultura cristã, seguindo-se depois vários milagres não especificados. |
| O culto de S.
Vicente espalhou-se então pela Europa, em especial na península (havia
um templo em Braga já em 618 d.C.), e aparentemente ganhou especial
devoção durante a ocupação muçulmana, por parte das populações
moçárabes. Voltando à crónica, ficamos a saber que os conquistadores
mouros não achavam templo cristão que não destruíssem (ou
convertessem em mesquita), ou ossos de mártires que não queimassem.
Assim, na iminência da sua chegada a Valência, os cristãos que
guardavam a sepultura de S. Vicente resolveram fugir com as relíquias
do santo, com os objectivo de as pôr a salvo. E é aqui que surge nesta
história o Cabo de S. Vicente, no Algarve. Mesmo à beira da escarpa
ficam as ruínas de uma capela que foi dedicada a Santa Catarina e, do
lado oposto, outras ruínas, as da antiquíssima Igreja do Corvo
dedicado a S. Vicente, e onde teriam sido depositados os restos mortais
de S. Vicente. Já em
meados do século XII, Muhammad al-Idrisi e Abu Hamid al-Andalusi
referem-se-lhe detalhadamente num "promontório que se mete pelo
Mar", "sobre a costa do mar das Trevas", opinando o
primeiro autor que a sua construção havia sido já anterior à
dominação islâmica.
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![]() Representação de S. Vicente, com narrativa visual dos episódios principais. |
| Mas, seguindo de novo a
crónica, ficamos a saber que os homens que fugiram de Valência com os
restos mortais do santo «aprouve a N. Senhor de os guiar àquele
cabo chamado agora de S. Vicente para o seu corpo ali ser enterrado e
escondido, ficando aqueles homens bons continuamente com ele, até que
ali chegou um cavaleiro mouro a que chamavam Albofacem, natural do reino
de Fez e que morava naquela terra dos Algarves, e encontrando os os
homens guardando o corpo os matou, deixando o corpo.» Afonso Henriques, depois da conquista de Lisboa e de estabilizada a fronteira na linha do rio Tejo, enviou uns homens numa barca ao Algarve, ainda território inimigo, resgatar as relíquias do santo. Não era a primeira vez que o fazia. Já o tentara ele próprio anos antes, depois da tomada de Leiria, mas sem as ter encontrado. Mas a segunda tentativa foi mais frutífera, visto que «fizeram uma barca e foram-se lá sem nenhum impedimento, desembarcaram e postos em oração pediram muito devotamente a Deus que lhes mostrasse onde jazia o corpo daquele glorioso mártir. E começando a escavar aprouve a N. Senhor que o achassem (...) pondo-o dentro da barca» e voltaram a Lisboa sem qualquer sobressalto visto que o próprio mar se acalmava à sua passagem. Chegado o féretro a Lisboa, «ElRey D. Affonso Anriques chorou com prazer, louvando muito ao Senhor Deos», ordenando que o sepultassem na Sé. Ocorre ainda que durante a viagem do Algarve para Lisboa, a barca que trazia os restos mortais do santo foi acompanhada por um corvo, imediatamente relacionado com o corvo que o protegera ainda no tempo dos romanos. Também na Sé o corvo continuou a velar o santo e «ali foi visto por muitos tempos». O brasão tem dois corvos. Se um só
acompanhou Vicente na sua última viagem, donde virá o outro? A meu ver
trata-se do corvo de Valência. Certo é que popularmente passou a
constar que dois corvos acompanharam a barca. O que não faz diferença
nenhuma, porque sendo ambas lendas, nenhuma é mais verdadeira que a
outra. Até porque há várias terras a disputar o corpo de S.Vicente:
há relíquias do santo em Castres, Cremona e Bari, pelo menos. |
INVOCAÇÃO A LISBOA ... ... ... E tu, mais bela, entre as belas, Cidade das caravelas, Repete a antiga viagem, Solta a amarra, larga as velas, E que as aves da carnagem, Os corvos, de pé, à proa, Ouvindo o mar que ressoa, Tenham os olhos em brasas, Crocitem, batam as asas, Na tua nau, ó Lisboa! ... ... ... Jaime Cortesão in Lisboa com Seus Poetas, Lisboa, D. Quixote, 2000, p. 279.
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| Em Lisboa, há certos candeeiros que exibem ainda a barca vicentina com os corvos. É inclusive possível seguir um itinerário estabelecido pelos candeeiros, que passa totalmente despercebido até aos lisboetas, e que tem vagamente o formato de um V. Partindo da Baixa Pombalina, seguindo o seu braço esquerdo com os Restauradores como única descontinuidade, passamos pela Avenida da Liberdade, Av. F.P.Melo, Av. da República, terminando no fim do Campo Grande. Seguindo o braço direito, ignorando a descontinuidade do Martim Moniz, subimos a Rua da Palma, Av. Almirante Reis até ao Areeiro. Grosso modo, os candeeiros encimados com a caravela estão presentes nas avenidas, enquanto os candeeiros com a caravela no seu braço se encontram na quadrícula definida pela Rua do Ouro, Rua da Prata, Rossio e Praça da Figueira. | ||
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Calçada junto à Rua de Entrecampos |
Caravela
com corvos, símbolo da Cidade de Lisboa |
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Na foto da esquerda, a entrada
para a Igreja de S. Vicente de Fora, em Lisboa. Ao centro alto, um dos
meus recantos preferidos na cidade: os Telheiros de S. Vicente.
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Rua dos Corvos, em Alfama, com gato no telhado. |
Sede do Sport Benfica Corvense, na Rua dos Corvos. Já lá comi um óptimo caldo verde e bebi um duvidoso "pascoal". |
Cartaz de Janeiro de
2004 a anunciar a celebração |
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| Na presidência de João Soares começou a aparecer um novo símbolo, mais 'moderno', embora sem carácter oficial. Lá continua, embora estilizada, a antiga viagem vicentina com a nau e os corvos. |
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| Com a presidência de Pedro Santana Lopes o símbolo voltou a ser alterado, mas desta vez para versão minimalista, ironicamente adequada caso o objectivo fosse espelhar a pobreza cultural dos seus autores. Diz a lenda que quando recordaram a Pedro Santana Lopes a simbologia vicentina, ele terá dito com boçalidade: «Que se LiXe», inspirando assim o novo logotipo. |
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A data de 22 Janeiro deve ter sido central nos tempos do martírio de S. Vicente, porque é o dia que a igreja lhe dedica. Na época dos descobrimentos recorria-se ao calendário religioso para baptizar o que se ia descobrindo. Por isso, sabendo que Diogo Afonso descobriu a ilha de S. Vicente, em Cabo Verde, em 1462, não é difícil deduzir em que dia foi. O mesmo aconteceu com Gaspar Lemos, aportado a S. Vicente, no Brasil, em 22 de Janeiro de 1502. |
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| "Lisboa em Pessoa", ilustração em azulejo dos monumentos e zonas típicas de Lisboa, onde a figura de Fernando Pessoa está sempre presente e associada a alguns mitos, entre os quais o do transporte de S. Vicente para Lisboa. Da autoria do alemão Konstantino Richter, foi capa oficial da revista de abertura da participação da Alemanha na Expo 98. | ||
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Fevereiro
2004